Cai o último ditador da América Latina


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Depois de quase meio século apeado ao poder, o ditador cubano Fidel Castro anunciou, ontem, que não será mais presidente de Cuba a partir do próximo domingo. Com problemas de saúde, Castro estava afastado do poder desde julho de 2006, quando passou o comando do país caribenho ao irmão, Raúl. Na mensagem ao povo cubano, Fidel prometeu continuar escrevendo artigos, mantendo o papel de “soldado das idéias” que assumiu nos últimos meses em Cuba. Raúl deve assumir o posto do irmão. Na carta de despedida, publicado no jornal Granma, o único permitido no país, Fidel fala ainda das limitações que os problemas de saúde trouxeram, ressaltando que “trairia sua consciência assumir uma responsabilidade que requer mobilidade e entrega total, o que não estou em condições físicas de oferecer”. E acrescenta: “Falo isso sem drama. A meus caros compatriotas, que me deram a imensa honra de me eleger, recentemente, como membro do Parlamento (...) comunico que não desejarei nem aceitarei - repito - não desejarei nem aceitarei o cargo de Presidente do Conselho de Estado e Comandante Chefe”, diz a carta. Cuba é (ou era?) o único entre os 33 países da América Latina a viver sob ditadura e é um dos elos que liga a região aos regimes autoritários que varreram as Américas, incluindo Brasil, entre os anos de 1960 e 1990. A ilha também é o único pais latino-americano que viveu em um regime socialista. Especialistas não hesitam em dizer que, por conta do exemplo cubano, ditaduras de direita foram instaladas no subcontinente. “A América Latina vivia a experiência inédita do comunismo e os grupos aliados aos Estados Unidos se organizaram para evitar a tomada de poder que a esquerda planejava no continente”, avalia Ayrton de Souza, especialista da Unesp (Universidade Estadual Paulista) em política internacional. Além da Ilha, Chile, Argentina, Uruguai, Paraguai, Brasil e Bolívia experimentaram ditaduras no período. Exceto a terra de Fidel, as demais, de orientação política à direita, foram apoiadas pelos Estados Unidos, envolvidos na Guerra Fria que opunha socialistas e capitalistas. As ditaduras nas Américas foram responsáveis, segundo estimativas, por ao menos 100 mil mortes - 380 vítimas no Brasil, 3 mil no Chile, 30 mil na Argentina e assim por diante, fora os torturados e exilados. “As ditaduras latinas foram sangrentas e tiveram participação dos Estados Unidos, com apoio logístico, mas os assassinos foram latinos. Os monstros não eram importados”, declara Pedro Paulo Funari, livre-docente em História, da Unicamp (Universidade de Campinas). Os especialistas também não hesitam em dizer que foi no Chile, com Pinochet, na Argentina, com Jorge Videla, no Brasil, com Costa e Silva, e em Cuba, com Fidel Casto, que as ditaduras atingiram seus momentos mais agressivos contra os direitos civis. Para Geraldo Cavagnari, especialista da Unicamp em política e estratégia de guerra, contudo, Cuba foi onde a repressão assumiu ares mais dramáticos, com seus 17 mil fuzilados. “A ditadura cubana durou muito tempo e matou dezenas de milhares de pessoas no período. Não foi a mais brutal, mas a mais constante”, disse. O REGIME O regime ditatorial em Cuba começou com um golpe de Estado, protagonizado por Fidel Castro, contra o ditador de então, Fulgêncio Batista, em 1959. Cambaleante desde a queda do muro de Berlim (1989) e muito ligada à figura de Fidel, a ditadura ameaça ruir com o declínio da saúde do líder máximo do país. Segundo o professor Geraldo Cavagnari, é difícil que o comunismo cubano resista à morte de Fidel. “O regime dificilmente continuará sem Castro, que é seu símbolo de sustentação”, afirma.

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