Exportar matéria-prima e importar produtos industrializados vem sendo a regra, para o Brasil, desde a época da colônia.
Primeiro com Portugal - tínhamos a obrigação de vender nossas riquezas naturais ao lusitanos e, como troca, só podíamos comprar deles produtos industrializados. Com a Independência, a lógica, que deveria ser quebrada, se manteve. No fim do século 19 e começo do 20, os demais países - Inglaterra, primeiro, e Estados Unidos, depois, mantiveram-se como grandes importadores de produtos de baixo valor agregado e exportadores, para a Terra Brasilis, de produtos tecnologicamente mais avançados.
Com a industrialização dos anos 30 e o avanço da indústria brasileira a partir da década de 1970, parte desse cenário foi revertido. O País começou a exportar produtos com maior valor agregado - grande destaque para os automóveis e para o setor de produção de minérios. Nesse cenário, a produção calçadista de Franca, existente desde meados do século 20, ganhou destaque e passou a chegar, com mais facilidade, ao mercado externo.
Eis que agora, no século 21, essa balança - quando o assunto é setor calçadista de Franca - começa a se inverter. Entre as dez maiores exportadoras da cidade, duas comercializam couro - incluindo a que mais vendeu no exterior. Com isso, embora o calçado pronto ainda seja a principal fonte de exportação da cidade - movimentou cerca de US$ 70 milhões em 2007 - a exportação de couro cresce a cada ano. Em 2006, a cidade angariou, com a venda do couro no mercado externo, US$ 40,6 milhões. Em 2007, US$ 50,4 milhões.
O dado, infelizmente, é perigoso e não é só de Franca. Segundo Ministério da Indústria e Comércio, o faturamento das exportações do setor coureiro ultrapassou, em 2007, os R$ 2 bilhões, o maior índice de toda a história. Já o faturado com a exportação de sapatos e demais componentes ficou em R$ 1,9 bilhão.
Na prática, significa o seguinte: ao invés de exportar o sapato com alto valor agregado - ou seja, pronto, incluindo no preço a expertise do sapateiro - o Brasil inverteu o jogo e começa a vender o couro para outros países produzirem. Pior: entre os grandes compradores do couro tupiniquim, destaque para a China (nosso concorrente mais direto no quesito quantidade e o País que mais compra) e Itália (segundo maior importador e nosso concorrente mais próximo na qualidade).
Vivemos uma espécie diferente de colonização, se é que podemos chamar assim. Com plenas condições tecnológicas para produzir com qualidade e bons preços, estamos optando por entregar aos concorrentes o couro brasileiro, reconhecidamente um dos melhores - senão o melhor - do mundo para que eles fabriquem bons sapatos. Poderíamos fazer mais e entregar o melhor sapato do mundo. Nos contentamos, infelizmente, com o papel, voluntário, de
colônia.
COLÔMBIA
Aproveitando o crescimento no mercado da América Latina, algumas indústrias aproveitaram a IFLS, principal feira do setor na Colômbia, para fazer bons negócios. Visitada por cerca de 15 mil profissionais de calçados, componentes e acessórios de moda de vários países, a IFLS contou mais uma vez com um pavilhão brasileiro. A ação foi promovida pela Abicalçados (Associação Brasileira das Indústrias de Calçados), em parceria com a Apex-Brasil e organização da Francal Feiras, como parte integrante do Brazilian Footwear, o programa de estímulo às exportações do setor.
FRANCA ZERO
As cinco marcas nacionais que participaram deste pavilhão - Klin, Cravo e Canela, West Coast, Bottero e Bebecê somaram expectativas de vendas da ordem de US$ 1 milhão. Infelizmente, nenhuma francana participou do evento. Nos últimos três anos, os embarques de calçados brasileiros para a Colômbia mais que dobraram em valores, saltando de US$ 8,3 milhões em 2004 para US$ 17,4 milhões no ano passado.
BOAS NOTÍCIAS
Embora o Sindifranca (Sindicato das Indústrias de Calçados de Franca) não tenha divulgado dados referentes à produção e exportação local, 2008 promete ser um ano menos ruim para os calçadistas, principalmente se levarmos em conta os primeiros dados sobre exportação do ano. Conforme dados da Abicalçados, com base em números fornecidos pela Secex (Secretaria de Comércio Exterior, ligada ao Ministério da Indústria e Comércio), no primeiro mês do ano, 20,4 milhões de pares de calçados brasileiros cruzaram as fronteiras do País, um crescimento de 21,8% em relação ao mesmo período do ano passado. Em termos monetários, os embarques geraram US$ 173,5 milhões contra US$ 168,3 de 2006, uma alta de 3,1%. Comparando os meses de janeiro, o resultado em volume foi o melhor das últimas duas décadas.
GRANDES
Analisando o histórico dos meses de janeiro das duas últimas décadas, este é o melhor até agora. Entre os principais compradores do sapato brasileiro em termos de faturamento, os Estados Unidos se mantêm no topo da lista, com uma fatia de 32% das exportações, com 8,23 milhões de pares. Para o Tio Sam, em 2007, haviam sido exportados “só” 5,9 milhões de pares made in Brazil. Logo em seguida aparece o Reino Unido, com 1,08 milhão de pares e, depois, a Itália.
BOM, PERO NO MUCHO
Tudo tem seu lado negativo, ainda mais quando falamos em calçados. Primeiro, o preço médio pago por par pelos exportadores passou de US$ 10,06 para US$ 8,51, uma queda significativa. Em segundo, o Estado de São Paulo continua tomando uma grande lavada quando o assunto é exportação: mandou quase 19% menos pares de calçados, enquanto o Ceará exportou 70% mais. Na primeira colocação segue o Rio Grande do Sul, com queda de 17,79% em volume.
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