Uma cidade é feita de pedra, cal, tijolos, concreto, casas, prédios, ruas, praças e avenidas. A vida de uma cidade assenta-se no dinamismo de sua indústria, no arrojo de seu comércio, na excelência de sua educação, porém, a alma da cidade não está na beleza de seus edifícios, no traçado monumental de suas avenidas, na grandeza de sua economia. O espírito de uma cidade, espírito que dá vida, cor e encanto às suas casas, ruas e logradouros, está na qualidade de sua gente.
Ângelo Tornatore não nasceu em Franca. Teve Brodowski (SP) como berço. Poderia ter nascido na Itália, mas o destino lhe havia reservado o Brasil, terra da promissão, onde seus pais e os conterrâneos deles iriam realizar uma obra imorredoura na produção de riquezas, na urbanização das cidades, na civilização dos povos. Tornatore cresceu em Brodowski ao lado do genial Cândido Portinari e de tantos outros imigrantes e filhos de imigrantes. Cresceu com o País que precisava tanto do talento, da determinação, do idealismo e do trabalho de sua mocidade.
Ângelo Tornatore não nasceu em Franca mas escolheu esta cidade como sua terra. Em 1944, era chefe da Agência dos Correios e Telégrafos que, então, situava-se à Rua do Comércio, no quarteirão compreendido entre a Praça Barão e a Rua Voluntários da Franca. Em 1945, inaugurou o prédio da nova agência (o mesmo de nossos dias) e para lá mudou-se. Aí criou as suas duas filhas, Marilene e Lenita, e aí viveu mais de três décadas.
Mais do que um funcionário competente e criterioso, Ângelo Tornatore foi um cidadão atuante. Desportista, presidiu a Associação Atlética Francana por mais de 20 anos. Homem de pensamento essencialmente democrático, lutou contra os preconceitos, os fanatismos, a ignorância e praticou uma filantropia discreta e sem publicidade. Presidiu por várias gestões a Loja Maçônica Independência III e ajudou a fundação de várias outras instituições da mesma natureza. Procurou sempre transformar para melhor a sociedade em que vivia e as pessoas com que convivia.
Em 1989, Tornatore partiu para o seu descanso eterno. Descansou na terra escolhida. Morreu? Não! Homens como Ângelo Tornatore não morrem. Simplesmente descansam. São vidas que não se extinguem porque permanecem indissoluvelmente unidas às entidades que criaram e dirigiram e às pessoas que puderam usufruir do seus conselhos, de suas orientações de sua experiência, de seus incentivos e de sua amizade.
Ângelo Tornatore completa hoje, 16 de fevereiro, 100 anos. Continua vivo na memória de seus amigos e nas obras que nos legou. E viverá por mais 100 e mais 100... até quando a gratidão, o reconhecimento e o respeito não desaparecerem do coração humano.
JOSÉ CHIACHIRI FILHO é historiador e contista. Escreve no Caderno Nossas Letras do Comércio, aos domingos.
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.