A indignação é tanta que sinceramente nem sei se deveria ter escrito o que escrevi. Mas, em virtude do compromisso assumido com o editor e em respeito aos meus cinco fiéis leitores, busquei forças no fundo da alma e decidi dedicar algumas palavras ao já sem graça episódio dos cartões corporativos do governo federal.
O noticiário não pára de anunciar. É um escândalo atrás do outro. Em um dos casos um ministro se hospedou em um hotel do Rio de Janeiro com a família e a babá e pagou tudo com o tal cartão.
Chamado a justificar-se, o ministro disse que o valor cobrado pela diária da família mais a babá foi igual ao valor de uma diária que seria cobrada se ele se hospedasse sozinho, até porque todos ficaram em um mesmo quarto no hotel.
Fala sério ministro. O senhor quer que o povo brasileiro acredite que o senhor ficou hospedado com a família e a babá em um hotel e não pagou nada a mais por isso? E mais, o senhor quer que o povo brasileiro acredite que o senhor, um ministro de Estado ficou hospedado com a família e a babá em um único apartamento? No que mais o senhor quer que a gente acredite ministro? Em duendes? Faça-me o favor.
E o presidente Lula? Toda vez a mesma coisa! Primeiro diz que é mentira, depois que é coisa da oposição e da mídia, depois diz que não sabia e finalmente que não há culpados, apenas ingênuos que cometeram lapsos de comportamento por não compreenderem corretamente as regras do jogo. Só faltou dizer que foi traído.
Seja tudo pelo amor de Deus, ninguém agüenta mais. Por muito menos Getúlio cometeu suicídio e o Collor foi deposto.
Sinceramente não sei onde vamos parar. De frente para o povo o governo chora e lamenta a falta de dinheiro para o básico e essencial – saúde, educação, segurança, infra-estrutura. De costas, libera geral os cofres para gastos das mais variadas formas.
Ainda bem que nessa democracia de aparências a impressa tem funcionado. Pode até ser parcial, às vezes, mas pelo menos a população tem acesso às informações. Repórteres investigam, jornais e revistas publicam e assim o que era para ser assunto de segurança nacional se transforma em mais um episódio triste e lamentável da política brasileira.
Diante do caos os nobres parlamentares - deputados e senadores da república - falam em CPI para investigar os gastos com os cartões.
Aí eu pergunto: CPI para investigar? Pra quê? Qual o resultado prático das últimas CPIs? O que mudou? Quem foi punido? Quanto de dinheiro foi recuperado aos cofres públicos? Quanto foi gasto?
Me respondam uma coisa senhores deputados e senadores: os senhores querem que o povo brasileiro acredite que uma CPI vai efetivamente funcionar ou querem mais uma vez que acreditemos que duendes existem?
ALEXANDRE HENRIQUE LEONEL é farmacêutico e integra o Conselho de Leitores do Comércio da Franca
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