Que me conceda seu perdão o professor Everton de Paula, insigne ensinador de nossa língua, por meter-me em área para qual não tenho credencial. O fato a provocar-me o atrevimento carrega motivações outras além da correção gramatical. Muitas palavras podem ficar inadequadas ou mudar a significação dependendo do tom usado a expressá-las, com raiva ou docilidade. No mundo moderno, a configuração de direitos e deveres nunca poderá ausentar-se dos debates em que se discutem os interesses coletivos.
Um fator preponderante para levar a resultados positivos é a educação aliada ao equilíbrio, em que o respeito a pessoas se insira como norma e compromisso irretorquíveis. A palavra-título aí acima, ouvi-a, repetidas vezes, em reunião recente, emoldurada por raiva e ódio, procedimento muito distanciado da elegância parlamentar adequada e desejada em grupo de reconhecidos pendores culturais. A que atribuir a causa? A uma falta de educação localizada ou à violência que grassa incontida?
Segundo grafa o dicionário Houaiss, “otário, diz-se de indivíduo ingênuo, tolo ou inexperiente”. “Tolo: 1. que ou aquele que não tem inteligência ou juízo; 7. Regionalismo: Norte de Portugal. Que enlouqueceu; demente, maluco”. “Néscio: 1. que ou aquele que é desprovido de conhecimento(s), de discernimento; estúpido, ignorante; 2 . que ou aquele que não tem aptidão ou competência; incapaz, inepto; 3. que ou o que é desprovido de sentido, de coerência; absurdo”.
O mesmo dicionário indica como sinônimos de otário, entre outros, tolo e néscio. Nascentes afirma que sua derivação vem de “otaria”, mamífero estúpido encontrado nos mares do sul.
Pela ojeriza e raiva demonstradas em sua verborréia, o interlocutor pretendia esconder-se na qualidade de ingênuo, esquecendo-se, no entanto, de que seu tom de voz, a amargura encastelada em seu íntimo no desejo de semear discórdia, assegurava-lhe com justeza outra qualificação: néscio.
A sabedoria popular reafirmou e sempre o fará: “o silêncio caminha de mãos dadas com o equilíbrio, gerando frutos na árvore do calar-se”.
Vociferar aos ventos provoca enrubescimento na razão, espalha discórdia sem nada acrescentar ao espírito da família.
GARCIA NETTO é jornalista
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