Câmbio, juros e indústria I: custos e conseqüências


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O Brasil encerrou 2007 acossado pela primeira queda do seu superávit comercial em 10 anos, conquanto tenha ampliado suas vendas externas, que cresceram em ritmo inferior às importações. Embora o saldo de US$ 40 bilhões situe o País entre os 25 maiores nesse quesito, a mencionada retração trouxe à tona os estragos impostos pelo “câmbio flutuante” à indústria nacional. O qüinqüênio 2003-2007 testemunhou o fracasso do BC na estratégia de comprar dólares para reverter a trajetória da moeda brasileira, progressivamente apreciada pelo ingresso de capitais externos de curto prazo, sobre os quais a elevada taxa básica de juros exerce literalmente o efeito de um imã. Curiosamente, é o próprio BC quem regula a Taxa Selic - que, recorde-se, chegou a representar 25% do custo de produção das empresas em 2003 e obriga o Estado a queimar anualmente 8% do PIB para conter a dívida pública sem reduzi-la, preterindo os investimentos em transportes, pesquisa de ponta, energia e defesa nacional. Desde 2003, a cotação do dólar saiu de R$ 3,60 para R$ 1,80, reduzindo a rentabilidade das exportações industriais ao menor nível verificado desde 1985 - queda acumulada de 29% em 2003-2006. O dano não foi maior em virtude dos reajustes dos preços e ganhos de eficiência das empresas com processos de gestão e inovação tecnológica do maquinário. Entretanto, esse esforço evolutivo - possibilitado por investimentos em P&D, RH e bens de capital - não é capaz de fazer milagres. Dentre 17 setores industriais analisados pela Fiesp, 13 aumentaram sua produtividade em 2007 - de 1,2% a 18,1%, conforme o caso -, mas apenas o coureiro-calçadista conseguiu incrementá-la acima da apreciação cambial ocorrida no ano. O quadro mostra-se mais adverso quando examinado em período mais longo: de 43 ramos industriais radiografados pela MB Associados, 21 perderam produtividade durante o decênio 1996-2005, embora no setor secundário como um todo ela tenha crescido 31,9%. Os ganhos concentraram-se na indústria extrativa, enquanto as perdas predominaram na indústria de transformação - de maior valor agregado -, com destaque para os “órfãos do câmbio”, como móveis, têxteis e calçados. Sintomaticamente, entre 1996 e 2005 o Brasil perdeu 18 posições no ranking de competitividade industrial da CNI - descendo do 4º lugar para o 22º lugar. Ainda assim, há quem insista que o real valorizado estimula a “destruição criativa” ao forçar os exportadores a “aprimorar” suas fábricas. Ora, a baixa rentabilidade das vendas inviabiliza a geração de excedentes de receita que possam ser investidos em P&D, conforme sublinhou o Prof. David Kupfer. Premida pelo caixa apertado, a maioria das indústrias limita-se a sobreviver, isso quando não “joga a toalha”: desde 2003, 2,2 mil empresas desertaram da batalha pelo mercado internacional, reduzindo nossa base exportadora em 17,3%. Até companhias de primeira linha como a Embraer já planejam reduzir seus embarques por conta do dólar. Logo, é falaciosa a tese de que a redução dos custos logísticos e a modernização do parque manufatureiro - embora desejável e até imprescindível - possam sozinhas neutralizar os efeitos da apreciação cambial, porquanto tais estratégias são soluções de longa maturação, inócuas para enfrentar um problema emergencial. Este se agrava em progressão geométrica: os produtos industriais encerraram 2006 com 45,5% de participação nas vendas externas do País, o menor nível em 24 anos. Decomposto o perfil das exportações industriais, a fatia dos bens de média-alta e alta tecnologia não excede 39%. O aumento contínuo dos embarques de manufaturados apenas maquia nossa perda de market-share para a Índia e a China, cujas vendas crescem em ritmo bem superior, ocupando espaços que poderiam ser do Brasil. Ademais, um levantamento da CNI junto a 830 empresas revelou que 64% delas consideram o câmbio a maior dificuldade para exportar e 27% ainda não reduziram suas exportações porque preferem preservar os mercados conquistados, mesmo auferindo lucro irrisório. Como o questionário foi feito em 2005, com o dólar cotado a R$ 2,20, esses percentuais decerto aumentaram desde então. Uma pesquisa elaborada pelo economista Fernando Puga permite mesurar os estragos provocados pelo câmbio: ao baratear os itens procedentes do exterior, o real apreciado beneficia as empresas onde a relação importação sobre exportação é superior a um - química, material elétrico e de comunicações, p/ex. -, que representam 10,6% das exportações industriais. No processo fabril essas companhias utilizam elevado percentual de componentes e insumos estrangeiros, montam o produto final e o embarcam. Os setores prejudicados pelo dólar - onde a relação importação/exportação é inferior a um - perfazem 89,7% das vendas de manufaturados e se servem predominantemente de fornecedores brasileiros na aquisição de insumos, o que redunda em maior índice de nacionalização dos produtos exportados, com a geração de linkages e efeitos positivos sobre outras cadeias no País. Todos esses benefícios se perdem em razão do câmbio, pois o barateamento dos importados induz as firmas exportadoras a passarem a usar peças estrangeiras no processo fabril para compensar a perda de rentabilidade. Ou seja, tornam-se meras “maquiladoras”, montadoras de produtos finais. Por isso o déficit comercial da nossa indústria de média-alta e alta tecnologia aumentou US$ 4 bilhões em 2006, embora as exportações dessa categoria tenham crescido 12%. Por mais que estas sejam ampliadas, o rombo persistirá, fruto daquele contrafluxo. Os danos dessa invasão sobre os segmentos mais dependentes do mercado interno não são menores: o número de empresas importadoras aumentou 29% em 2003-2007 (de 21.718 para 28.021), pois as que não sucumbem à concorrência se resignam ao papel de “maquiladoras para dentro”, vendendo no País produtos feitos com insumos de fora. Assim, o recente boom do consumo ensejado pela recuperação da renda tem gerado mais empregos no exterior do que no Brasil. Em suma, está em curso uma regressão do parque produtivo: em 1996-2005, caiu de 47% para 42% o valor adicionado na indústria brasileira, cuja fatia no PIB despencou de 33% para 22% no período. Examinado o perfil do setor manufatureiro, nota-se que em 2001-2005 reduziu-se de 34% para 30% a participação dos setores de alta e média-alta tecnologia no valor da transformação industrial. Tais são, em síntese, os efeitos política econômica vigente desde 1995. Amanhã serão discutidas as saídas possíveis. EDUARDO LUCAS DE VASCONCELOS CRUZ é bacharel em Relações Internacionais e mestrando em História pela Unesp, bacharel em Direito pela FDF e Editor-assistente do Comércio da Franca.

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