<p>O vereador Marcelo Mambrini (PMN) é alvo de uma Comissão Processante na Câmara e corre o risco de ser cassado por quebra de decoro parlamentar. Segundo ele próprio, a situação sugere que ele “deveria estar um lixo”. Mas não. Chegou à sede do Comércio da Franca, na sexta-feira, animado. Cumprimentou a todos os funcionários da redação, brincou com alguns. Parecia a-lheio à situação em que está envolvido. Mas bastaram poucas palavras para a verdade surgir. Mambrini está com medo de ser cassado. Teme ainda - o que ficou evidente a cada resposta - bater de frente com qualquer um que possa piorar sua situação. Nos poucos momentos de firmeza, disse que está decepcionado com alguns colegas de Câmara e, em especial, com o prefeito Sidnei Rocha, que não o teria procurado para oferecer qualquer tipo de apoio. “Projetos importantes que foram aprovados com dez votos, como da Sabesp, do CDP e da extinção da Fundação “Mário de Andrade” tiveram minha participação. Com nove, não passariam”, disse. Confira abaixo a entrevista, um quase desabafo, de Marcelo Mambrini.</p><p><strong>Comércio da Franca - O processo de cassação foi aprovado e o senhor corre o risco de perder o mandato. Como está a sua situação?<br />Marcelo Mambrini -</strong> Olha, não é nada agradável. Minha família está triste, meus irmãos estão tristes, minha mãe está triste, todas as pessoas que me amam estão sofrendo, talvez até mais que eu. Mas eu estou aqui, de cara limpa, barba feita, dando entrevista, encarando tudo de frente. Tinha tudo para estar arrasado, mas não estou. Quero provar que sou inocente. Quero ter a chance de chegar nas minhas palestras e não ser apontado como o vereador que foi cassado.<br /><br /><strong>Comércio da Franca - Sobre a votação em si, sentiu-se injustiçado?<br />Mambrini -</strong> Veja, os vereadores não tiveram acesso à minha defesa. Eles votaram embasados no parecer dos dois vereadores do Conselho de Ética. Mesmo lá, um dos três participantes recomendou o arquivamento do processo. Disseram que minha defesa era frágil, mas não consideraram que minha ex-assessora não apresentou nenhuma prova. Era muito mais frágil. Bastava a presidência da Casa ou Comissão disponibilizar a cópia da defesa aos vereadores para que a verdade ficasse clara.<br />Só julgo que fui injustiçado porque os vereadores poderiam ter tido um pouquinho mais de cuidado na apreciação da minha defesa, toda ela embasada, fundamentada. Desafio qualquer jurista a encontrar condições mínimas para punir a minha pessoa. Faço um desafio com base na fita e nas testemunhas que serão desclassificadas.<br /><br /><strong>Comércio - O senhor disse, em entrevista recente, que os conflitos entre o senhor e os servidores da Câmara foram os responsáveis pela instauração do processo de cassação. A pergunta, seca: a Câmara é um ninho de cobras?<br />Mambrini - </strong>Não digo que seja, não afirmo, mas, se não for um ninho de cobras, as pessoas ali agem como tal.<br /><br /><strong>Comércio - Quem são essas pessoas?<br />Mambrini </strong>- Prefiro não dizer, mas vou afirmar que essas pessoas depuseram contra mim.<br /> <br /><strong>Comércio - O senhor relata abertamente que foi procurado pelo gabinete do prefeito e até mesmo por ele em diversas votações importantes para o governo. Ao que consta, o prefeito não o procurou durante as investigações. Como o senhor avalia essa postura? Sente-se traído?<br />Mambrini - </strong>Não quero usar a expressão traição. Veja bem, o termo política nos remete a pensar em uma troca. Nada ilegal, mas é uma troca. Você está me apoiando hoje e, quando você precisar de mim, eu quero apoiar você também. O que posso dizer é que, nessa situação, meu apoio não foi retribuído, tanto que ninguém me procurou. Eu fiquei simplesmente, não sei se eu posso usar o termo, abandonado. Eu poderia ter sido procurado pelo menos por alguns colegas, que não fosse para aliviar minha situação, mas ao menos para que dissessem: “Olhe, força ai, não estou dizendo que vou te absolver, mas queria que você soubesse que estamos torcendo para que as coisas se resolvam”. Isso não aconteceu. Ninguém, nenhum vereador me procurou.<br /><br /><strong>Comércio - Entre os nove vereadores que votaram pela abertura da Comissão Processante alguma surpresa? E mágoa?<br />Mambrini -</strong> Mágoa não, absolutamente. Mas surpresas, sim. Talvez o próprio vereador Marcelo Valim pudesse ter me absolvido, por conhecer toda a situação. O Maurício Chinaglia conhece a minha trajetória, o Pelizaro, o doutor Marcelo e o próprio Jepy. Além disso, o prefeito me surpreendeu. Basta ver que, em todas as votações importantes, o resultado foi dez a nove, meu voto foi decisivo. Tudo isso poderia ter sido lembrado. Não consigo sentir raiva, mágoa de ninguém. Só fico triste porque eu poderia ter tido um tratamento diferenciado, mais justo, com base no que foi apresentado na minha defesa e na fragilidade das provas usadas contra mim.<br /><br /><strong>Comércio - Houve três depósitos, na conta da sua ex-assessora, que o senhor confirmou ter feito. Como explica isso? Foi um “cala a boca” para evitar problemas?<br />Mambrini -</strong> Pensei que era um financiamento. Assinei alguns papéis e uma funcionária da Câmara perguntou se eu autorizava o empréstimo. Pensei que era o avalista. Para não ter o dissabor de ser questionado pelo banco no futuro, fiz os depósitos. Isso não é comprar silêncio como disseram. Seria se estivesse ido até a casa dela e entregado o dinheiro, mas não, eu fui até o banco e preenchi o envelope, com meu nome inclusive. Nesse ponto, fui mal orientado e não tive curiosidade de perguntar se, ao assinar os papéis, eu me colocava realmente como avalista. Foi um erro.<br /><br /><strong>Comércio - Mas analise, vereador. O natural não seria, assim que demitiu a assessora e sabendo-se supostamente avalista, procurar o banco para checar e depois encontrar uma medida legal para evitar o pagamento? Não seria o lógico?<br />Mambrini -</strong> Deveria sim, mas, já que essa manifestação não nasceu de mim, o departamento financeiro da Câmara poderia ter me comunicado. Nunca tive intenção de prejudicar minha assessora. Ela está usando os depósitos como desculpa porque sabe que o vídeo não tem nada que realmente me comprometa.<br /><br /><strong>Comércio - O senhor acredita que sua ex-assessora fez isso premeditadamente, por vingança ou dinheiro?<br />Mambrini </strong>- Acho que não por dinheiro. Se ela tivesse essa preocupação, teria feito todos os esforços para manter o emprego dela, mas ela não fez. Ao contrário. O meu erro foi confiar demais.<br /><br /><strong>Comércio - O senhor já tem uma advertência no Conselho de Ética. Se for punido novamente - mesmo que não cassado - pode perder o mandato. Pensa em renúncia?<br />Mambrini -</strong> Olha, eu quero acreditar muito que não serei cassado. Com base no Regimento, não cabe a cassação. Mas digo agora que, se isso acontecer, eu vou ser obrigado a ingressar com mandado de segurança. Vou garantir o mandato na Justiça.<br /><br /><strong>Comércio - Quer dizer que não vai renunciar? Vai até o fim? <br />Mambrini </strong>- Diria que não tenho isso em mente, a renúncia é uma probabilidade quase inexistente, quase nula.<br /> <br />Comércio - 2008 é ano eleitoral e esse escândalo terá implicações nas urnas. Até que ponto o senhor acredita que uma possível candidatura - supondo que o senhor não seja cassado - será prejudicada? Teme a punição das urnas? <br />Mambrini - Para mim não existe meio-termo, ou as pessoas vão me condenar ou perceberão que o componente político está prevalecendo e vão reconhecer que está havendo uma injustiça muito grande em relação à minha pessoa. Queria até que os leitores tomassem cuidado para não se juntarem a quem quer prejudicar o vereador Mambrini. Não tenho medo das urnas.<br /><br /><strong>Comércio - Nos bastidores, o senhor tem sido chamado, talvez pelos seus inimigos, de Severino Cavalcante - aquele ex-presidente da Câmara dos Deputados que acabou renunciando para não ser cassado. Também há quem o chame de Roberto Jefferson, com medo do que o senhor possa dizer se for cassado. O que acha disso? <br />Mambrini -</strong> Com o Severino, não tem nada a ver, até por questões físicas (risos). Talvez alguns me chamem de Severino porque não tenham medo. Mas já me chamaram de Roberto Jefferson sim, talvez porque alguns tenham medo que eu abra a boca e revele algumas coisas. Mas veja bem, não quero jogar dessa maneira... não acho que valha a pena ou que seja justo.<br /><br /><strong>Comércio - O presidente da Câmara, Joaquim Ribeiro, deve ser o voto decisivo para sua cassação ou absolvição. Como é estar na mão de um “inimigo”?<br />Mambrini -</strong> Não considero o Doutor Joaquim um inimigo não, temos posicionamentos diferentes e é só, tanto que tenho um relacionamento calmo com ele.</p><p><br />Colaborou Tiago Rocioli
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