‘Mutatis mutandi’


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Este é o último sábado da transição entre o Brasil festeiro e o Brasil que trabalha. Aqui, dizem as más línguas, o suor troca de lugar com a imaginação só depois do Carnaval. E, já que estamos no assunto, você já se perguntou como e quem define qual o período dos festejos de Momo? Já? E não chegou a nenhuma conclusão? Então, mate a curiosidade. A data do Carnaval muda ano a ano. Quem fixa é a Igreja Católica. Primeiro, as autoridades eclesiásticas calculam a data do Domingo de Páscoa. Fazem isso a partir da primeira das datas de equinócio, ponto da órbita da Terra em que se registra uma igual duração do dia e da noite e que ocorrem pontualmente em 21 de março e 23 de setembro, os chamados equinócios de Primavera e Outono. Vale, então, para o cálculo, o dia 23 de março. Consultam então um calendário das fases da Lua e verificam a data de ocorrência da primeira Lua Cheia após o dia 23. Para ficar no exemplo de 2008, 18 de abril. Aí se busca o primeiro domingo após esta Lua Cheia: 23 de abril. Esta data será a do Domingo de Páscoa. Descontam, então, a semana anterior – a chamada Semana Santa – e contam quarenta dias para trás (isso, você está acompanhando bem: a Quaresma). O quadragésimo dia, para trás, será... Acertou de novo: a Quarta-Feira de Cinzas. Viu como caiu em 8 de março? Pronto, você já pode passar a “descoberta” para a frente. Voltemos à questão do início do texto. Segundo todos e quase sem alguma honrosa exceção, o País começará a trabalhar para valer na segunda-feira, dia 11, 41 dias após a “virada do ano”. Por que isso acontece? “Trabalha-se muito tempo por ano só para pagar impostos e então, ‘fintar” 41 dias é um direito de cidadania”; “Se os políticos não trabalham antes do Carnaval, por que deveríamos nós, os eleitores, fazê-lo?”. As explicações, boas ou ruins, se sucedem. Eu, particularmente, entendo que somos tradicionais seguidores dos movimentos culturais. A economia acompanha os movimentos culturais. Em Franca, a exemplo, inúmeras indústrias mandam embora seus operários ao final do ano e os recontratam “depois do Carnaval”. Em outras cidades, há fenômenos similares. No País todo há coisas do tipo. O Carnaval é, portanto, a pedra-de-toque dessa coisa. Mutável, determina revoluções sociais de todos os tipos. Consultei a chefe de reportagem do jornal, jornalista brava e bacharel em Direito pela Unesp, Priscilla Salles, e lhe perguntei qual o melhor termo para indicar coisas que estão sempre em movimento, tornando-se outras, fazendo com que normas e regras que valiam até ontem serem lançadas ao cesto de lixo. E ela, do alto de seus 1,90 metros, determinou: “mutatis mutandi”. Coloquei-me a pensar. Se uma festa de Carnaval popular, realizada em praça pública, estivesse como dizem os jovens de hoje, “bombando” e um padre pedisse para que fosse feito silêncio porque ele teria que celebrar uma missa cerca de uma hora depois, o que você acha que aconteceria? A terceira guerra? Um festival de traquinagens? Uma chuva de ovos? Zombaria total? Não em Delfinópolis (MG), cidade turística habitada por gente gentil e respeitadora, capaz de dizer aos milhares de turistas que literalmente “entupiram” a cidade durante o Carnaval que, ali, se respeitava o padre. Acredite ou não, no auge de matinê de Carnaval, palco com DJ e banda, milhares vestidos com muita ou quase nenhuma roupa, a mensagem de padre Carlos Maia aos alto-falantes de Igreja, para que os festejos parassem porque seria celebrada a missa, “colou”. Parou tudo. A farra só voltou às 23h00 horas. Mutatis mutandi. Semana passada, escrevi esta coluna com saudade dos bailes de salão do tempo das marchinhas. Recebi mensagens de outros saudosistas, de todas as idades, dizendo que hoje não vão mais a lugar nenhum e que “Carnaval falta pouco para acabar”. Lembrei-me das máscaras e das fantasias de outros tempos, peças que usávamos para dificultar “só um pouco” nossa identificação. As máscaras mudaram. Tornaram-se diferentes. Um pouco de purpurina aqui e ali para “tapar” um pouco... o corpo. Ou então, só um pedaço do corpo: no Rio de Janeiro a moça foi ao desfile de sua escola de samba com mini-mini-tapa-sexo, adesivinho que caiu logo em função da chuva, do suor e da centimetragem... A escola perdeu pontos preciosos porque o regulamento proíbe a “genitália desnuda”. Mutatis mutandi. Sei. Há também os que defendem mudanças como conquistas do tempo, modernidade. Respeito. Cada um sabe onde colar o seu adesivo. O interessante é que há um outro movimento em andamento: pessoas de todas as idades passaram o Carnaval rezando, ou em casa, ou em pousadas, ou fazendo visitas a quem não viam há tempos. Jovens também. Há esperança... Mutatis mutandi. IMPOSTÔMETRO Ao início deste ano, o jornal Folha de São Paulo publicou interessante reportagem sobre o número de dias que cada brasileiro adulto, cumpridor de seus deveres de cidadania, deveria trabalhar no ano, para pagar impostos. O site www.impostometro.com.br (consulte, por curiosidade...) foi usado para dar base à investigação. A resposta, relativa a 2007, foi incrível: 5 meses! Fiz algumas contas e cheguei a uma constatação interessante: nossos políticos, em Brasília, trabalham habitualmente de terça a sexta-feira. São, portanto, 16 dias por mês. Se tirarmos janeiro e parte de fevereiro, julho e dezembro – férias(!!!) – nossos representantes atuarão 128 dias, algo em torno de quatro a cinco meses ao ano, exatamente o tempo que pagamos de impostos, dinheiro para o divertimento “deles”. Mas há quem trabalhe duro, claro... POR ÚLTIMO Comento a última de hoje: você, tomador do refrigerante hegemônico, percebeu mudança do sabor da bebida nas garrafas de 600 ml? Tem gosto de rapadura. Mudaram o açúcar por melaço? Ninguém dos Direitos dos Consumidores vai gritar? Acho que Priscilla diria que este é mais um dos sinais dos tempos, mutatis mutandi.

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