Poder


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Poder? “Poder” traz à mente influência, autoridade, governo, liderança de umas pessoas sobre outras nos âmbitos político, econômico, profissional, familiar, etc., ou seja, relações entre pessoas. Até onde vai o poder? As pessoas geralmente querem garantias, mas quem as pode dar? O médico pode garantir a cura? o agricultor, a boa colheita? o cirurgião, o sucesso da cirurgia? o advogado, o ganho da causa? o jogador, a vitória? o motorista ou piloto, a chegada ao destino? Não. Eles podem fazer o melhor possível a sua parte, mas existem fatos e circunstâncias que não estão no seu campo de domínio. Já me senti tomado por certo desânimo com tanto trabalho perdido em razão da prescrição em muitos processos e de certas decisões judiciais que me parecem absurdas. Todavia, hoje encaro de outra forma. Nada de desânimo. Faço o que devo fazer e da melhor maneira possível, ancorado na lei e no meu senso de justiça, mas dentro do meu limitado raio de alcance, e não fico me remoendo se os frutos do meu trabalho, por razões contrárias à minha vontade, não são os esperados. É o plantar sem esperar os frutos. Não posso responder por atos alheios se não tenho poder sobre eles. Faço o meu trabalho, respondo pelas minhas ações. Nenhum profissional pode ser responsabilizado pelos erros de outros da sua área. Antes de querer exercer o poder sobre os outros, a pessoa deve se preocupar com a extensão do seu poder perante si mesma. Se no campo interpessoal o poder não é absoluto, na esfera íntima é menos ainda. Quantos conflitos internos...! A boca desgovernada que lança impropérios, como uma metralhadora disparando balas, quando devia se calar. O sono insubmisso que some quando precisamos dormir e aparece quando devemos estar despertos. O pensamento rebelde, que insiste em martelar quando queremos esquecer e viaja errante no tempo e no espaço distantes quando devia ficar e se concentrar. A mão indócil que soca quando, com ternura, deve afagar. Quando estava na fase final do concurso do Ministério Público, eu quis levantar duas horas antes do habitual para estudar mais tempo. Acabei dormindo com o livro aberto, um claro recado do meu corpo de que eu estava tentando subverter leis naturais e que precisava do sono; o meu poder estava aquém do que eu queria. O poder se manifesta de forma plena e positiva com o domínio dos próprios atos. É quando a razão vence a emoção, quando o caráter domina a conveniência. Ter poder é ter autogoverno, ser senhor, e não refém, dos próprios desejos e atos, vencer a inércia quando é preciso agir, conter o impulso quando se deve ficar quieto, domar os maus pensamentos, tirar os ‘grilos da cuca’, enxergar a beleza nas pequenas coisas, tirar proveito de uma situação aparentemente adversa (fazer com o limão uma limonada), sorrir. Quando uma pessoa é ofendida ou humilhada a gente fica torcendo para ela reagir e dar a maior surra na outra. Mas ter poder mesmo é permanecer imperturbável diante de uma ofensa, uma provocação. Controlar a vontade de revidar ou vingar é ter poder. Maior poder ainda é não sentir a vontade. Não por medo ou covardia, mas por estar acima disso. A pessoa não tem o poder de mudar o mundo. Mas o tem para mudar a si mesma e assim melhorar a convivência com tudo que a cerca. O motorista embriagado não tem o domínio de si mesmo; como vai controlar o veículo? Quem quer vencer um vício vai conseguir se se conscientizar de que seu poder de resistência, composto por disciplina, persistência e força de vontade, é maior do que o próprio vício. É óbvio que na prática é difícil; nada é fácil, mas o real poder se revela mesmo é no sacrifício. PAULO PEREIRA DA COSTA é promotor de Justiça e autor do livro Pensando na Vida. E-mail: paulopereiracosta@uol.com.br

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