O esporte ocupa um considerável espaço na mente e no coração do brasileiro. Somos viciados em esporte, principalmente em futebol. Assistimos aos fatos e eventos esportivos em várias mídias: televisão, rádio, internet e jornal impresso. Discutimos o assunto em vários lugares: casa, trabalho, escola, praças, botequins e esquinas. Independentemente do horário: no café da manhã, na hora do almoço, na mesa do jantar, durante o expediente profissional, na hora do filme, nos intervalos da novela, entre outros momentos.
Sabemos os principais acontecimentos, os resultados, as análises e não nos cansamos de ver e rever a mesma notícia. Somos um público que mantém três canais (TV fechada) exclusivos de esporte, inúmeros programas (TV aberta e rádios) e sites, além de um jornal impresso exclusivo. Como consumidores alimentamos as cifras de um mercado milionário. Compramos de chaveiros a títulos de sócio de clubes esportivos. Idolatramos os atletas como se fossem divindades.
Apesar de tudo isso, não somos capazes de exigir do poder público a implantação de medidas para tornar o esporte um instrumento de inclusão social. Não temos a consciência que o verdadeiro Ministério da Saúde é o Ministério dos Esportes, pois os esportes possibilitam aos seus praticantes uma vida saudável. Somos coniventes ao assistir a determinados dirigentes de confederações, federações e clubes se perpetuarem no poder.
Curiosamente os dirigentes ocupam cargos não remunerados. Entretanto, quando (dificilmente) deixam as suas funções, os mesmos têm um patrimônio infinitamente superior ao que possuíam quando assumiram o posto. É o chamado ‘Dirigente Midas’, tudo que toca/possui/adquire, supervaloriza-se.
Ficamos felizes ao vermos a realização de um evento como os Jogos Pan-Americanos em nosso País. A euforia de sediarmos uma Copa do Mundo nos ilude. Enxergamos os eventos somente nos momentos de disputa, dentro das pistas, ginásios, quadras ou campos.
Segurança, transporte, estadia de quem participa ou assiste são deixados de lado. De onde vem o dinheiro ou para onde vai, é algo sem importância. Entender que se aqueles valores fossem aplicados em educação, saúde, segurança e infra-estrutura é um raciocínio complexo pelo qual não nos interessamos. O cálculo do custo em razão do benefício adquirido é ignorado para não apagar os holofotes da festa.
Somos torcedores ávidos pela disputa, pela medalha, pelo troféu. Não somos cidadãos que fiscalizam a aplicação dos recursos e as condutas de nossos dirigentes ou governantes. Sabemos a escalação de nossos times, porém, não sabemos em quem votamos nas últimas eleições. Damos mais importância à convocação da Seleção Brasileira de Futebol do que à nomeação dos Ministros de Estado.
O esporte nos diverte e conquista. Torcemos como nunca, sem sermos cidadãos sempre. (PS – O título e o texto foram inspirados no artigo ‘Cidadão de lixo’, disponível em www.dimenstein.com.br, um precioso retrato da cidadania brasileira).
CARLOS EDUARDO GIMENES DE MATOS integra o Conselho de Leitores do Comércio da Franca
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