Carnaval de salão já era. Na Franca de outra época, o sábado da folia era de intensa movimentação em preparação a quatro noites de rodopios pelos salões da AEC/Centro e Castelinho, Clube de Campo, Internacional, Francana, Clube dos Bagres e Bagres Country, Luiz Gama e outros, em busca da colombina ou do pierrô apaixonado.
Ao acorde de marchinhas (“por causa de uma colombina / acabou chorando / acabou chorando...) ou de marchas-ranchos (vou beijar-te agora / não me leve a mal / hoje é carnaval...) executadas por orquestras como a de Laércio de Franca (fui ouvi-la dia destes – está voltando – e a saudade bateu forte...), flertes puros podiam acabar em uma “ficada” de mãos entrelaçadas para “pular” junto aos que dançavam no salão. Raramente passava disso .
Funcionava assim: as moças e casais já resolvidos faziam parte do grupo que dançava. Em volta, os rapazes, “incentivados” por “martinis”, “camparis”, “cubas” (a célebre mistura do refrigerante hegemônico com rum), buscavam uma “deixa”. Os olhares tinham que cruzar e permanecer. Se permanecessem, havia a chance.
Era bonito de se ver. Os sinais eram quase imperceptíveis. Se a moça se interessasse dava um jeito de se aproximar, sempre dentro do carrossel. Bem perto, o moço tinha que vencer o desafio de dirigir uma palavra qualquer (sim, havia a necessidade de dizer alguma coisa: “Posso?”, “Você deixa?”, “Você é linda!”...). Aí, a mão dela se estendia, tomava a dele. Eram gerações tímidas. Ao fim da noite, se tinha sido bom, podia haver combinação para o dia seguinte. E para o outro dia. E para depois do Carnaval.
Os hormônios agrediam como é hoje. Entre um refrigerante ou um “gim-tônica” e outro, os corpos se aproximavam e se prometiam, mas, de novo, não passava disso. Os rapazes, entre si, falavam sobre a “conhecida” dor nas “partes baixas”, mas ficavam completamente apaixonados pelas moças que deixavam claro que “respeito é bom e eu gosto...”
Bem. Os tempos da flertes puros e dos certeza de que, para ter direito ao corpo era preciso ir à casa dos pais da moça “pedir a mão” antes, acabaram. Os costumes excederam a capacidade dos salões. As letras fáceis e sonhadoras das marchas foram tomadas pelos “tô ficando atoladinha”, “vai descendo na boquinha da garrafa”, “créu, créu, créu...”. A “evolução” musical transformou as moças em cachorras, periguetes, tchutchucas, popozudas, egüinhas, potrancas, bandidas e a porção machista dos rapazes, travestida de tigrões, adorou.
O olhar que dizia tudo foi substituído por sacos de pirulitos, catalisadores da “nova” aproximação de corpos. O toque apressado de mãos nervosas e tímidas de outros tempos se tornou beijo gratuito com o primeiro ou primeira desconhecida que pintar à frente. Muitos beijos e muitos desconhecidos. Sem travas. Todo mundo ficou “fácil” e tudo muito simples. Respeito ao outro à lata de lixo.
Durante a coleta de dados para fechar esta coluna, o conceito de “paternidade responsável” acabou tomando conta das conversas que mantive com médicos, hospitais e cartórios. Não há, a rigor, números que comprovem a tese de que haveria explosão do número de nascimentos após nove meses do Carnaval, aventada por alguns que querem julgar a permissividade sexual que caracteriza nossa época como sinal dos tempos, mas afloraram informações importantes. Uma delas: ano passado, após consultar as escolas estaduais, o governo emitiu 2.118 intimações para mães que tivessem filho onde não constasse o nome do pai. Destas, 1.011 correspondiam a registros feitos no Cartório de Registro Civil da cidade e 1.107 no cartório da Estação. No cartório da cidade, segundo me contou o escrevente Sebastião Luiz Pereira Júnior, 523 mães compareceram mas só 108 declararam quem era o pai do filho. Eles foram intimados pelo juiz corregedor da Comarca. Destes, apenas 47 foram e reconheceram a paternidade. Os outros, ou não compareceram ou disseram que tinham dúvida. No cartório da Estação, 6 reconheceram a paternidade.
Então, 53 garotos, 2,5% dos 2.118 sem pai, mudaram a condição de seus registros. Agora, filhos com pai???
NÃO MAIS
Sabe quais os meses onde se concentra o maior número de nascimentos em Franca? Em outubro, novembro e dezembro. Se você fez as contas e entendeu que deveria ser assim mesmo, já que nestes meses contam-se sete, oito ou nove meses dos festejos de Momo, errou. A razão não é a permissidade própria do tempo de arnaval. Não mais. Já foi, segundo me disse o médico Sátiro Rodrigues Alves, presidente do Hospital Regional de Franca. “Há décadas, quando quase ninguém se preocupava com métodos de controle de natalidade, havia explosões de números. Hoje, ao contrário, as pessoas estão melhor informadas e se resguardam mais”, disse.
NÚMEROS
E Sátiro tem razão. Maria Salete Gomes Teixeira, oficial responsável pelo cartório de registros civis do 2º Subdistrito (Estação) e Sebastião Júnior, do cartório do 1º Subdistrito de Franca (Centro) abriram, a meu pedido, os números de três décadas de registros de nascimento nos meses em que, teoricamente, se daria à luz os filhos do tempo de Momo. Acompanhem: outubro de 1987 – 469; 1997 – 452; 2007 – 416; novembro de 1987 – 452, 1997 – 409, 2007 – 412; dezembro de 1987 – 449; 1997 – 497; 2007 – 409.
São similares, mesmo uma década de diferença entre cada um. Deveriam aumentar em função do crescimento da população, mas revelam pequena tendência de queda, o que também é normal, segundo Maria Salete: “o conceito de paternidade responsável explica: menos filhos através do uso adequado de métodos contraceptivos”.
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