Cerca


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A definição de “cerca” aflorou sutilmente do septuagenário professor-aposentado de fala cansada que, mesmo não estando ativo profissionalmente, ainda pensa, forma opinião e a dissemina como mestre incansável que sonha com efetivas transformações positivas do ser humano. O assunto da roda de amigos girava em torno de condomínios fechados e também das cercas quase letais adotadas para proteção residencial em outros bairros da cidade. A lucidez do homem-professor atingiu em cheio o cerne da questão: “cerca é igual à propriedade que é igual à separação”. Vejam bem, antes dos condomínios “cercados” já existia uma espécie de “cerca imaginária” que alguns adotaram afastando-se do convívio social aberto e livre. Não cometeria aqui injustiças em generalizar, mas é sabido que alguns com maior poder aquisitivo já pensavam em privar-se; direito de escolha que merece nosso total respeito. Já não concordaria, por exemplo, em “cercar” repartições públicas que historicamente sempre estiveram abertas à população. Sendo mais específico, o prédio de uma Prefeitura, instalações que foram e continuam sendo cenário de cambaleante construção pela busca “democrática-unificadora” de um povo. O zelo pelo patrimônio público sempre foi louvável, reconhecido e apoiado pela população até certo ponto. No entanto, ainda não consegui alcançar o nível de intelectualidade exigível para o vislumbre da compreensão do motivo da “cerca” à casa de todos. Seria vandalismo? Atos indecorosos ou libidinosos? Furtos e roubos? Reduto de gangues? Não saberia dizer com segurança qual seria o real motivo. Mas pude imaginar se o Presidente Lula adotasse tal medida tolhendo a população aos pontos turísticos de Brasília como a área externa do Congresso Nacional, Praça dos Três Poderes e acessos adjacentes. Ou, até mesmo aqui na vizinha-irmã Ribeirão Preto se fechassem a transeuntes e turistas a visitação externa ao Palácio Rio Branco... Certamente, em qualquer lugar público e turístico da Nação se perderia toda a sensação de glamour e historicidade que representaria o local e, certamente, na opinião de alguns, o gozo da liberdade com civilidade e cidadania estaria seriamente cerceada. Estamos no tempo da evolução tecnológica e câmeras de monitoramento seriam boa escolha para não ferir as liberdades. Aliás, falando em “liberdade”, volto àquela espécie de ‘cerca imaginária’ que algumas pessoas às vezes criam. Pois é, talvez em determinadas circunstâncias elas desejem “separação, distanciamento, demarcação de território e isolamento, construindo num primeiro momento seus ideais com “cercas imaginárias”, mais tarde trazendo-as para a realidade e dando formas a elas”. O professor, terminando a aula ao ar livre, fez questão de encerrar frisando aos que o ouviam sobre “a virtuosa importância pela manutenção do respeito e cordialidade para com os poderes constituídos”, advertindo que, “verdadeiras fortalezas foram tombadas por força da democracia; aliada do “tempo”, detentora do poder de intervir e transformar”. RICARDO VERÍSSIMO JÚNIOR é funcionário público e integrante do Conselho de Leitores do Comércio da Franca

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