Tempo cinza


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A roupa que não seca. A parede molhada e mofada. A goteira que teima em pingar sobre os móveis. Os carros quebrados pelos buracos que ressurgiram no asfalto. E o que é dor de cabeça para uns vira lucro para tantos outros. É o caso das lojas de calhas, telhas, lavanderias e oficinas mecânicas. Motivos não faltam para as pessoas contratarem alguns serviços nesta época de chuva. Num dos estabelecimentos, o movimento chega a ser dez vezes maior que no período de seca. Com calhas entupidas de galhos, penas e folhas, vazamentos e gessos prestes a desabar, os donos de imóveis da cidade acabam tendo que recorrer aos calheiros, profissionais que atuam limpando as calhas. Quando começa a cair água, o telefone da Calhas e Cia não pára de tocar. “Durante a estiagem, passo dias sem fazer reparos em calhas, quando tem é um por dia. Hoje (ontem), estou com dez pedidos e orçamentos para fazer”, disse o proprietário Alexandre Vieira. O complicado é que as pessoas só percebem que têm problemas quando começa a chover e os vazamentos aparecem nas casas, mas os calheiros não podem trabalhar com tempo chuvoso, pois podem escorregar. Os adiamentos acumulam mais os serviços. “Só fazemos o que for muito urgente. Usamos capacetes e cintos de segurança, pois há risco de cair do telhado molhado”, disse Alexandre. Entre a última sexta-feira e segunda, a Calhas Epi preencheu três folhas de cadernos com pedidos de orçamento. Foram solicitações de 20 clientes. Como choveu bastante no fim de semana e anteontem, os funcionários não conseguiram verificar alguns defeitos e a loja precisou suspender novos agendamentos. “Não temos condições de atender todos. Até recusei pedidos”, disse Roseli Miranda, da Calhas Epi. Trocas de telhas rachadas também são mais comuns com a “chuvarada”. Na verdade, os serviços de reparos nas calhas e troca de parte dos telhados funcionam em cadeia, estão ligados entre si. Ao fazer a limpeza das calhas, os funcionários sobem no telhado e a telha molhada fica mais frágil e pode rachar com facilidade. Se rachou, a substituição tem de ser rápida porque é período de chuva. Não é à toa que o movimento nas lojas aumenta. “A construção civil pára com a chuva porque não há como instalar telhados completos, mas as trocas de poucas quantidades crescem cerca de 20%”, disse Paulo Sérgio, dono da Telhas Santa Cruz. O motorista Edmar de Carvalho, 46, está com infiltração nas paredes e goteiras em sua casa, no Condomínio Porto dos Sonhos. “Acho que todo mundo está com esses problemas porque está chovendo demais. Preciso resolver”. As oficinas mecânicas são outras a registrarem movimentação maior em épocas mais úmidas. As chuvas fazem os buracos no asfalto ressurgirem e os estragos em carros são inevitáveis. Problemas com suspensão, parte elétrica e troca de limpadores de pára-brisa são os mais corriqueiros. “A poça d’água camufla os buracos na rua e o motorista acaba passando com o carro sobre eles, estragando o veículo. Além disso, só se lembram das palhetas do pára-brisa quando chove. Em alguns carros, a borracha até gruda no vidro”, disse Denir Serafim, proprietário da Mecânica Beser. Em dias ensolarados, a oficina dele não costuma fazer nenhuma substituição de pára-brisas, mas quando chove, trocam de três a quatro por dia. SEM SOL, NÃO SECA Só as potentes secadoras das lavanderias são capazes de vencer o tempo chuvoso e deixar as roupas secas, prontas para serem usadas. Os clientes parecem ter descoberto isso. As contratações de lavanderias aumentam. “Além de estar chovendo e as pessoas não terem espaço físico coberto para secar as roupas, muitas dão férias para as empregadas por causa do recesso escolar e viagens desta época. Com isso, os serviços domésticos acumulam”, disse Mauro Fernandes, proprietário da Tchau Varal. A lavanderia processa 150 peças a mais por dia quando chove, 20% a mais que o normal. “Recebemos mais roupas pesadas, difíceis de secar”. A previsão é de mais água nos próximos dias.

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