O que significa na prática o princípio da dignidade da pessoa humana, garantido na nossa atual constituição federal? Significa que o Poder Público deve garantir a todo cidadão condições mínimas de sobrevivência. Bonito, não? Na prática isso é totalmente esquecido inclusive por nós que damos valor ao que temos e não ao que somos.
Explico: duas pessoas têm o mesmo direito a dignidade, certo? Na teoria sim, na prática não, pois se uma dessas pessoas tiver poder aquisitivo melhor, ela certamente terá mais dignidade garantida. A menos afortunada, oras, oras...
Estive em um consulado recentemente e minha entrevista estava marcada para as 11h00. Cheguei às 09h30 para me precaver contra qualquer atraso ou contratempo. Na cidade de São Paulo o clima é instável e isso é sempre inconveniente. No horário de minha chegada fazia sol; minutos depois e próximo ao horário agendado, chovia.
A fila – e aí não adiantou chegar mais cedo – já era enorme. Do lado de dentro havia outro pequeno ajuntamento de pessoas que também aguardava para entrar no setor de entrevistas. Eu fiquei sob a chuva. Comprei um guarda-chuva – é impressionante a rapidez dos vendedores, parece que combinam com o “mestre das chuvas” – e encolhi-me junto aos demais. Se quisessem, poderiam ter nos colocado todos dentro do prédio, mas não o fizeram. Após quarenta minutos consegui chegar à fila de dentro.
Ouvi um ruído surdo. Olhei ao lado e vi uma jovem caída, desmaiada. Policiais lhe deram socorro. Passei por um detetor de metais, tive minha bolsa revista e me preparei para a entrevista. Qual!
Existiam mais filas em outros locais do consulado. Fui à fila da “pré-entrevista”. Depois, à fila das impressões digitais e a outra, para pagar a remessa do passaporte pretendido, pelo correio.
Caro leitor. Você pode pensar que tudo isso é normal, mas não pode ser. Cheguei às 09h30 para não perder o horário da entrevista que me foi agendada para as 11h00 e fui atendido... às 14h00. A sala de espera deveria ser ao menos confortável, local adequado para quem tem que aguardar por um longo período, mas não: trata-se de um barracão com telhado de amianto e bancos de madeira com assentos horríveis. Os sanitários eram do tipo químico, móveis, pois os de alvenaria estavam em reforma. Naquele consulado circulam entre 1,5 a 2 mil pessoas por dia. A tal entrevista ocorre num pequeno guichê onde o entrevistador não se mostra muito cortês e após verificar os documentos concede ou não o visto sem quaisquer explicações.
Me esqueci de contar que até chegar à entrevista, houve o pagamento de inúmeras taxas. Fica-se com a impressão que o que o entrevistador realmente vê é o que você é e não concede o visto porque você é um cidadão brasileiro que tem a intenção de conhecer outras culturas para ser uma pessoa melhor. E, em conclusão, a tal da dignidade humana, prevista na constituição dos países democráticos do mundo, é balela. Lá e cá, filas e desrespeito, há...
ACIR DE MATOS GOMES é advogado, corretor de imóveis, adesguiano e palestrante
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