Sérgio (nome fictício) está com 17 anos e já coleciona um currículo nada honroso. Disse que começou a roubar aos 9 anos por sentir prazer. Aos 15, se tornou usuário de drogas e fez de assaltos e roubos meios de sustentar seu vício. Num intervalo de apenas dois anos, o rapaz está internado na Fundação Casa (Centro de Atendimento Socioeducativo ao Adolescente, ex-Febem).
Entrevistado em agosto, falou, com frieza, sobre crimes, vícios, família e futuro. Seus pais, que o visitam todos os domingos na Fundação Casa, dizem que o filho caçula está mudado. “Ele está diferente, falando em Deus e me escreveu uma carta emocionante”, disse a mãe de Sérgio no ano passado.
Comércio da Franca - Por que se envolveu com drogas e crimes?
Sérgio - Isso vem da pessoa mesmo, basta querer. Eu cresci assim mesmo, envolvido no crime mesmo.
Comércio - Teve alguma influência?
Sérgio - Não teve não. Eu mesmo que escolhi. Escolhi o crime para ‘mim’ roubar.
Comércio - Você começou a roubar com que idade?
Sérgio - Comecei com 9 anos.
Comércio - Como foi?
Sérgio - A primeira coisa foi assalto, só roubo, só.
Comércio - Você se lembra do primeiro roubo? Você estava sozinho? Como foi? Onde aconteceu?
Sérgio - ‘Tava’ eu e mais ‘dois menor’ e foi lá no mercado do Brasilândia II. Entrei armado com um revólver 38.
Comércio - Isso com 9 anos?
Sérgio - Sim. Com 9 anos eu já estava roubando até não querer mais.
Comércio - Você se tornou usuário com que idade? Que drogas já usou?
Sérgio - Com 15 anos. Já usei muita droga na minha vida: crack, maconha, cocaína.
Comércio - Você roubava para quê?
Sérgio - A maioria da vezes era para sustentar minha droga mesmo.
Comércio - Aos 9 anos, você ainda não usava drogas...
Sérgio - Não usava não.
Comércio - Roubava por que então?
Sérgio - Roubava porque eu gostava de roubar mesmo.
Comércio - Quem o acompanhava?
Sérgio - Amigos. A gente ia em três no máximo.
Comércio - Você tem noção de quantas vezes já roubou?
Sérgio - Quantas vezes eu já roubei? Vixe, se eu for falar para você, vão ser várias vezes. Só de assalto tenho seis.
Comércio - Você roubava o quê?
Sérgio - Dinheiro. De supermercado, lotérica...
Comércio - Você se arrepende?
Sérgio - Me arrepender não arrependo não. Agora eu estou preso, não tem jeito de me arrepender.
Comércio - Se você encontrasse as vítimas, você gostaria de falar algo para elas?
Sérgio - Não tem nada a falar para essas vítimas não. Não me arrependo do que eu fiz não.
Comércio - Como você pensa que será sua vida daqui para frente? Quanto tempo você vai ficar na Febem?
Sérgio - Acho que mais ou menos uns nove meses. Depois vou voltar para as ruas de novo.
Comércio - O que você espera depois de sair da Fundação Casa?
Sérgio - A gente espera se regenerar. Tem de tentar.
Comércio - Antes da internação, você usava drogas com que freqüência?
Sérgio - Vixe, era por dia. Usava um pouco, depois ia roubar. Era a semana inteira roubando. Sempre para fazer o assalto estava drogado, bebia umas pingas para ficar bem doido para roubar, furtar também.
Comércio - Você estudou até que série?
Sérgio - Parei na 8ª série. Não estudo mais não.
Comércio - E o que seus pais acham desses crimes?
Sérgio - Ah, eles acham que eu sou um desocupado.
Comércio - E seus irmãos?
Sérgio - Meus irmãos é tudo (sic) sossegado, tranqüilo, é crente (religiosos). Meus pais também. Só eu mesmo que entrei nessa vida.
Comércio - Se você recebesse algum tipo de ajuda, aceitaria?
Sérgio - Ah, a gente até tenta, né?
Comércio - O que você sugere para ser ajudado?
Sérgio - Então, o povo tem de dar apoio para ‘os menor’ também, porque a gente tenta arrumar uma casa de recuperação, mas ninguém arruma não. É onde os menor ‘entra’ no caminho do crime para roubar. Rouba mesmo.
Comércio - Mas você já tentou algum casa de reabilitação?
Sérgio - Já tentei, tentei.
Comércio - Qual?
Sérgio - Teve uma lá pro lado de Ibiraci... Ibiraci ou Claraval, nem me recordo não.
Comércio - Você se lembra quanto tempo ficou internado lá?
Sérgio - Não, eles nem me internaram não.
Comércio - Mas o que alegaram?
Sérgio - Falou que não tinha vaga. Aí, voltei a roubar novamente.
Comércio - Você já trabalhou alguma vez?
Sérgio - Já trabalhei já.
Comércio - O que você fez?
Sérgio - Trabalhava de jardineiro lá numa chácara no Campo Belo. Faz um tempinho já.
Comércio - Foi o único trabalho que você teve?
Sérgio - Foi. Agora meu trabalho mesmo só foi roubar, só foi fazer assalto.
Comércio - E quando você estiver livre novamente?
Sérgio - Ai, tudo depende, porque não adianta falar que a gente vai ter uma melhora porque é muito difícil ter uma melhora. O negócio é difícil. Poucas pessoas se regeneram quando ‘sai’ da cadeia.
Comércio - Você já esteve na Fundação Casa outras vezes?
Sérgio - Já.
Comércio - Quantas vezes? Faz tempo?
Sérgio - Uma só. Faz um ano e pouco que saí de lá.
Comércio - Por que você foi internado?
Sérgio - Assalto.
Comércio - O que aconteceu para você ser internado novamente?
Sérgio - Estava com mais um. Nós pegamos dois ônibus da São José e assaltamos os cobradores. Nós ‘pegava’ o dinheiro e já ‘saía’ gastando. A gente entrava armado toda vez.
Comércio - Chegaram a machucar alguém nesses assaltos?
Sérgio - Nunca machucou. Nós só ‘agride’ se a pessoa reagir. Se não reagir, vai ficar sossegado. Nenhuma vez reagiu, graças a Deus. Porque se reagir, eu ‘sento’ (atiro) o dedo mesmo. A gente entra e já logo fala para ninguém ficar apavorado, gritar, porque se gritar nós ‘vai’ meter bala. Sou desse jeito.
Comércio - Você pensa em formar família?
Sérgio - Até penso.
Comércio - Você tem medo do seu filho seguir o mesmo caminho seu?
Sérgio - Não. Aí eu não quero que meu filho fica no mesmo caminho que eu estou não. Não quero a mesma vida que eu tive para ele.
Comércio - Não compensa?
Sérgio - Não. O crime não compensa para ninguém não.
Comércio - Por que então você não desiste?
Sérgio - Não consigo sair do crime não.
Comércio - Como você vê seus próximos 20, 30 anos?
Sérgio - Se até lá eu tiver envolvido no crime.... Vou ficar no crime até o fim, até o resto da minha vida.
Comércio - Qual sua perspectiva de crescimento no crime? O que você quer nesse mundo?
Sérgio - Ah, quero ter progresso. Eu gosto mesmo, eu gosto de roubar. É adrenalina.
Comércio - É o mesmo efeito de usar drogas?
Sérgio - Não. No assalto (a adrenalina) é maior. No assalto, o coração fica tumtutumtum, a um milhão.
Comércio - Você acha que roubar pode ser um vício?
Sérgio - É. Pode ser um vício, porque eu sou viciado em roubar mesmo.
Comércio - Quem lhe apresentou o mundo dos bandidos?
Sérgio - Isso vem de longe. Quando eu era muito pequeno eu já gostava de roubar mesmo desde os 9 anos. Só eu mesmo na família sou ‘enfurnadão’. Não me arrependo dos meus atos não. Na hora que eu terminar de pagar, vou estar na rua de novo. Eu não vou ficar o resto da minha vida preso, graças a Deus.
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