Pronto. Você descobriu que perdeu a bolsa, com todos os documentos. Lá estavam o RG, o CPF, a CNH, os documentos do carro. Junto, a sombrinha, a blusa e as chaves da casa. Desespero total. Onde deixou tudo? Em uma das lojas por onde passou? Em cima da mesa onde almoçou? Pôs em cima do carro, entrou, deu partida e foi embora? O que fazer?
As situações descritas são mais comuns do que se imagina: aí está você, sem lenço e sem documento. Conversei ontem, enquanto preparava esta coluna, com Sandra Santos, a mais experiente das telefonistas do Grupo Corrêa Neves de Comunicação, 18 anos recebendo gente na portaria da rádio Difusora. Ela me disse que “a rádio é o primeiro lugar que quem encontra alguma coisa, pensa em estar para devolver. Também, é o primeiro lugar para onde quem perde alguma coisa, corre”.
Ditam bilhetes apressados e confiam em que os Valdes, Romeros, Evertons, Cintias, Leandros, Vinícius, Valins, Zacarellis tenham o poder de “achar” o que perderam. O rádio multiplica o pedido por dezenas de milhares de vezes e, se alguém que teve acesso ao que foi perdido ouve, se quiser, devolve. Verdade que tem pessoas que não esquentam a cabeça e não se movem um milímetro para devolver a paz ao desastrado que ficou sem documentos ou bens. As coisas alheias mofam nas gavetas. Ou vão direto para o lixo.
Bom. Vamos entender o que Sandra faz. Ela coordena arquivos com centenas de RGs, CPFs, carteiras de trabalho, CNHs, títulos de eleitor e blusas, guardas-chuva, chaves de todos os tipos.
Diariamente relaciona o que recebe e manda para os apresentadores de programas. Quando a caixa transborda, despacha tudo para os Correios.
Isso. É para a agência central dos Correios que as emissoras de rádio e outras fontes enviam o que recebem. O gerente da agência central Sérgio Fonseca, 33 anos de estatal, conta que tudo “é listado, registrado em um cadastro nacional de dados e, através do telefone – gratuito – 0800.570.0100 ou do site www.correios.com.br, o interessado pode saber se seu documento – ou “os dois quilos de carne bem empacotados e ainda gelados que uma pessoa encontrou e deixou lá para serem devolvidos se o dono procurasse” – pode ser recuperado. Os Correios disponibilizam a informação por 60 dias. Depois, distribui os documentos aos organismos que os originaram.
E continuamos em busca do rastro do que perdemos. Para a Seccional de Polícia – Rua Campos Salles, 2275, sala 5 – os Correios mandam os RGs. Falei com o Antônio Batuíra, papiloscopista de 17 anos de serviços prestados à Civil e quase caí duro. Ele tem lá um arquivo com mais ou menos, 5 mil RGs órfãos de seus donos. Disse que “as pessoas perdem e imediatamente pedem uma segunda via e isso está errado”.
Aconselhou ao “perdedor”, “publicar no jornal, procurar a ACIF e o SPC e a esperar pelo menos uma semana, antes de pedir segunda via. Paciência pode garantir a volta do documento. Se não houver resultado, aí sim”.
CPFs vão para a Delegacia da Receita Federal. Títulos de eleitor, para os cartórios: Fátima Garcia Ferreira, 15 anos no cartório da 46ª Zona me disse que não vale a pena tentar recuperar o título perdido. “Peça logo outro no novo endereço da repartição, à rua Francisco Jorge, 2112”, disse ela.
Carteira de Trabalho vai para o Ministério do Trabalho e Emprego, que também está de casa nova: Praça Primeiro de Maio. Segundo Jamil José Leonardi, gerente regional do Trabalho e Emprego há 4 anos “há muitas encontradas e disponíveis aqui, mas poucos se lembram de perguntar, preferindo pedir outra”.
CNH’s e documentos de veículos vão para a Ciretran. Anote o que me disse o Cosme Eduardo Silveira Borges, escrivão do organismo: “quem perde vai gastar cerca de R$ 50 por uma 2ª via de licenciamento de veículo, mais uns R$ 115 pela 2ª via de recibo do carro e uns R$ 30 por cópia da CNH. Aconselho a não perder”. E está certo. A chatice – e o alto custo – para tirar novos documentos é uma verdadeira... chatice.
ANONIMATO
O pessoal dos Correios me disse que muitos documentos são colocados nas caixas da instituição, espalhadas pela cidade. Segundo Sérgio Fonseca, “este é um dos caminhos muito utilizados por quem não quer ser identificado”. As outras fontes dos Correios são o rádio, as unidades básicas de saúde, os hospitais, as igrejas. Quer dizer: se você acha que perdeu algo nestes locais, os Correios podem ser boa opção para busca.
TESTEMUNHA!
Sandra Santos, da Difusora, recebeu um dia uma blusa e guardou na caixa “Achados e Perdidos”. Ninguém procurou. Um dia, apareceu um policial perguntando se a peça de vestuário estava lá. Disse que sim. Surpreendeu-se. O policial disse que ia arrolá-la como testemunha, porque a peça fora furtada. Teve que comparecer algumas vezes à Polícia. Ossos do ofício.
HEIN?
A quantidade de bens perdidos, encontrados e devolvidos através dos caminhos apontados é muito grande. O que não é representativo – e todos os consultados disseram, em média, a mesma coisa – é a busca efetiva de quem se vê sem seus bens ou documentos. Completo: não acho que seja desinteresse e sim, desconhecimento de como funciona a “máquina da devolução”. Foi por isso que fiz esta coluna. Espero a ajude meu leitor a não perder o resto dos fios de cabelos que ainda teima em conservar.
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