O nosso ‘modus vivendi’ privilegia o ‘ter’ (grande apego a bens materiais) e não se preocupa com o ‘ser’ (busca de virtudes); dá mais valor ao que o dinheiro pode comprar. A pessoa vale pelo patrimônio material que tem e não pelas suas qualidades. Não quero pregar o total desapego material, nem sugerir que se passe a viver como monge; sou só mais um habitante do planeta Terra, onde, para viver, não se prescinde de certas coisas; escrevo sem tirar os pés do chão e com a realidade em foco. É preciso comer, vestir, ter lazer, moradia, etc, e isso não se obtém gratuitamente. Mas vejo um equívoco na valoração dos bens necessários a uma vida melhor. Não censuro quem quer uma casa confortável, um bom carro, produtos eletroeletrônicos modernos, as facilidades que a tecnologia proporciona, etc. Quem trabalha e ganha seu dinheiro honestamente não deve se privar das coisas necessárias e úteis que ele pode comprar. Não há nada de errado com o ‘ter’, desde que não seja o fim último e único que se persegue.
A vida é o bem mais precioso. É preciso ter amor à vida e manter com ela uma relação harmoniosa, e isso se alcança com o cultivo de virtudes que possibilitem conhecer a natureza da existência neste mundo, saber da sua transitoriedade e lidar com as suas inconstâncias, as suas contingências. Quem ama a vida não procura a morte, mas também não a teme. Uma vida com qualidade se obtém conjugando a satisfação das necessidades materiais com a busca dos bens imateriais, com ênfase para estes últimos. Deve-se cultivar o ‘ser’, valorizar a vida, ter leveza na alma, simplificar o ato de viver, não sentir incômodo diante do sucesso alheio. Muitos males físicos têm causa psíquica (raiva, ansiedade, rancor, remorso); muitas aflições vêm de um modo errado de encarar a vida; com uma simples mudança de atitude elas se vão. As virtudes afastam o sofrimento quando ele é desnecessário e dão forças para suportá-lo quando inevitável.
Entre os bens indispensáveis, os úteis e os supérfluos, cabe valorá-los seguindo a premissa de que as coisas foram feitas para a vida, não a vida para as coisas. Ter além do necessário pode ser tão maléfico quanto nada ter. Quanto maior o patrimônio material, mais preso a ele a pessoa fica. A moderação é benéfica. ‘Tanto se adoece por comer em excesso como por definhar à míngua. Não é, por conseguinte, ventura despicienda encontrarmo-nos em uma situação mediana. A superfluidade chega mais cedo aos cabelos brancos, mas a modicidade vive mais tempo’ (Shakespeare).
Mesmo no ‘ser’, o equilíbrio é sempre o melhor caminho. Suicídios decorrentes de fracassos, comuns em países desenvolvidos, resultam de uma cultura que não deixa espaço para erros e tenta transformar o ser humano numa máquina.
A vida prega peças, impõe dificuldades, adversidades, tragédias, perdas de entes queridos. A força para não sucumbir vem de dentro, do fundo da alma. Quem preza a vida faz o melhor possível; alegra-se com as vitórias, mas as derrotas não lhe tiram o entusiasmo e a alegria de viver. Há que se buscar uma sanidade mental, uma limpidez de consciência que permita enxergar a realidade sem distorção, considerar as condições da existência com a devida sensatez, agir movido por sentimentos nobres, seguindo um código de ética que preze a amizade, o respeito, a solidariedade. Valorizar o ‘ser’ é a maneira de encontrar a paz e a harmonia que devem ser o objetivo maior do ser humano, para o bem da própria humanidade. Afinal, todos somos cobertos pelo mesmo céu, iluminados e aquecidos pelo mesmo sol. Para o mesmo fim afluem todos os caminhos.
PAULO PEREIRA DA COSTA é promotor de Justiça e autor do livro Pensando na Vida. E-mail: paulopereiracosta@uol.com.br
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.