A emoção de conhecer o mar


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O monitor João Neto (de boné) ensina às crianças como “pegar” uma onda.
O monitor João Neto (de boné) ensina às crianças como “pegar” uma onda.
Já era quase meia-noite de domingo, 20 de janeiro. A dona-de-casa Isabel Damaceno, 30, e a filha Gabriela Facho Damaceno, 9, estavam em frente à Prefeitura de Patrocínio Paulista. Abraçadas, elas choravam sem parar. À primeira vista, parecia que sofriam com algum problema. Nada disso. As duas apenas se despediam. Gabriela estava prestes a se juntar a outros 39 estudantes, com idade entre 9 e 11 anos, que foram contemplados com uma viagem à praia de Caraguatatuba - a 449 quilômetros de Franca -, onde conheceriam o mar pela primeira vez. As crianças foram selecionadas para participar do projeto do governo do Estado “Caravanas do Conhecimento - Interior na Praia”. A emoção em Patrocínio Paulista era geral. De um lado, a tristeza de ficar longe dos pais por uma semana; do outro, a alegria de conhecer o mar. Enquanto as malas eram acomodadas no bagageiro do ônibus, as mães faziam “mil” recomendações aos filhos. “Obedeça os monitores”, dizia uma. “Não fique sem passar protetor solar”, dizia outra. “A mamãe vai ligar todos os dias”, afirmava a maioria. A euforia ia tomando conta da criançada. À medida que o grupo aumentava, a alegria crescia. Alana Santos da Silva, 10, estava numa agonia só. Abraçada ao travesseiro, despediu-se rapidamente da mãe, Maria Lúcia dos Santos, 32, e ficou parada na porta do ônibus esperando a chamada - que era feita por um dos monitores - para escolher sua poltrona. Quando seu nome foi pronunciado, ela, mais que depressa, gritou: “Sou eu. Sou eu”. E lá foi ela se juntar aos amigos. Por volta de meia-noite e meia a viagem começou, acompanhada de perto pela repórter Patrícia Paim e pelo fotógrafo Divaldo Moreira, ambos do Comércio. As crianças gritavam de alegria e as mães, de famílias simples, balançavam as mãos sem parar e mandando beijos. Muitas delas correram para a outra esquina para prolongar um pouco mais a despedida. Daiane Ilara da Silva, 9, não parava de rir. “As duas últimas noites ela nem dormiu direito de tão ansiosa”, disse a avó, Leonilda Gimenes, 50, pouco antes da viagem começar. “Nossa, acho que nem vou sentir saudade de tanta vontade que tenho de conhecer o mar”, disse Daiane. A pequena Gabriela, que minutos antes chorava com a mãe, nem se lembrava mais da despedida. Abraçada ao bichinho de pelúcia, conversava sem parar com as amigas. O monitor João Luiz de Souza Neto, 31, convocou as crianças para fazer uma oração no início da viagem - mas antes disso, cantaram um repertório inteiro de funk e pagode. Só depois de passar por Franca é que finalmente rezaram. Os monitores disseram para as crianças dormirem, porque a viagem era longa e precisavam estar descansadas para o dia seguinte. Imagina se alguém queria dormir. A maioria ainda conversou por mais de uma hora. IMPREVISTO Por volta das 3 horas da manhã foi feita a primeira parada para o banheiro. Fazia muito frio. De volta ao ônibus, todos se agasalharam embaixo dos cobertores. Às 6h30, outra parada. Primeiro imprevisto da viagem. Pneu furado. A troca demorou uma hora. As monitoras Alice Reis, 23, e Vera Lúcia Ernandes, 59, aproveitaram para dar o café-da-manhã às crianças. No cardápio: pão com mussarela e refrigerante. Os monitores Sérgio Moreira, 26, e João Neto ajudavam o motorista Ivanil Dias, 50. De volta para a estrada. Na descida da serra próxima a Caraguatatuba, os estudantes se agitaram e não pararam mais quietos. A viagem que estava prevista para terminar às 7 horas só acabou às 11h30 em função do imprevisto. As crianças se hospedaram na Escola Municipal “João Benedito Marcondes”, onde se juntaram às caravanas de Mutuca (SP) e Tatuí (SP). Depois de se acomodarem nas salas de aula, os estudantes foram almoçar. “A viagem está muito legal. Não vejo a hora de ir para a praia”, disse Anna Lúcia Pimenta, 9. “NOOOOOSSAAA.....” Enquanto os monitores se reuniram para traçar a programação da semana (os alunos chegaram em Caraguatatuba na segunda-feira, 21, e voltaram para Patrocínio ontem), as crianças vestiam as roupas de banho. A comitiva dos três ônibus rumou, em seguida, para a praia. De tão ansiosa, a garotada nem sentava. Quando o ônibus virou a esquina que deu de frente para o mar, foi uma explosão de emoção. “Nooooossaaa.....”, gritaram em coro. “Eu acho que estou sonhando. É o mar”, afirmou João Victor Silva, 10. As crianças não sabiam se gritavam ou se riam. Para aumentar ainda mais a emoção dos estudantes, os monitores cobriram o rosto de Jean Carlos Tonin, 10, e Luís Gustavo Borges, 9, para não verem o mar até chegarem dentro d’água. De mãos dadas com o monitor João, os dois foram os primeiros a entrar no mar. Quando a onda bateu nas pernas, eles se emocionaram. Quando viram o “tamanho” do mar começaram a dar gargalhadas. “Eu só ouvia o barulho da água e, quando a onda bateu na minha perna, foi adrenalina pura”. Infelizmente, o dia não estava para praia. Chovia na praia de Indaiá. Mas as crianças nem se importaram. Correram ao encontro da água. Pulavam as ondas, mergulhavam e pegavam conchinhas. Alana Santos, 10, era uma delas. “Eu trouxe um vidro para encher de conchinhas para levar para minha mãe”. Já João Victor de Oliveira se encantou com tanta areia. “Nunca vi tanta areia”. A preocupação de Rander Oliveira, 10, era outra. “Tem muita água. Acho que vou rezar antes de entrar para ficar protegido”. Durante a semana, as crianças visitaram parques ecológicos, parque de diversão, museu, fizeram trilhas e aproveitaram muito as praias. Na noite de quinta-feira, ainda tiveram uma superfesta de despedida com o DJ Juca Bala. O passeio terminou sexta-feira com o retorno para casa.

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