O ativismo nesses tempos de tantas contradições tem sofrido certo ‘enconchavamento’ conveniente aos poderes constituídos.
A licença gramatical insolente vem de concha e conchavo, essa dupla sedutora que faz parte do pacote de silêncio imposto a muitas vozes de outrora. Até porque a política de tanta mesmice não produz ativistas como antigamente.
Os caras pintadas, quiçá instalados nos altos postos de governo, silenciaram suas vozes e estão literalmente desativados. Mas essa idéia é imortal, sem dia, hora ou território para nascer e se expressar. Brotam da história, sementes de coragem regadas de muita vida e muito risco para defender a intransigente crença pessoal de justiça e paz.
Muito embora meu editor no Comércio, entre outras broncas, prudentemente me houvesse recomendado moderação quanto ao entusiasmo exacerbado à causa feminina – ‘pode cansar o leitor’ –, ‘data venia’, recaí. Justificando, é que mulheres magníficas estão sendo esquecidas. Não podemos perder mais tempo porque são exemplos que deveriam obrigatoriamente constar de currículo escolar tão carentes; permear as câmaras e parlamentos, Executivos e Judiciários. Ademais, essa inspiração pode resignificar vidas circunstancialmente ociosas, portanto benéfica à parcela ‘chocha’ da humanidade.
A revista de Bordo da Gol publicada em agosto passado, traz um texto de René Daniel Decol contendo um apelo: ‘Façam-na conhecida’! O apelo se refere à história de Aracy, a “Ara” do João Guimarães Rosa; Aracy Moebius de Carvalho, sua fiel companheira. Hoje, aos 99 anos, vive na capital em companhia do único filho e nora e pouco se recorda dessa parte de sua história.
Essa paranaense embarcou na década de 30 para a Alemanha levando na mala um ‘desquite amigável’ e seu filho ao colo, descartando assim um Brasil fortemente machista. Era preconceito da época, muito semelhante ao da tuberculose que assolava o País. Seus portadores eram enviados a São José dos Campos ou Campos do Jordão, a fim de não disseminarem.
Assim, as separadas eram ‘aconselhadas’ pela tradição familiar a começarem uma nova vida em outro lugar. O itinerário cultural de Aracy, fluente em línguas – especialmente no alemão –, justifica sua nomeação para o consulado brasileiro em Hamburgo, como encarregada dos vistos entre outras tarefas.
No mesmo 1938, um violento e racista decreto de Vargas, proclamado do alto do Estado Novo, decreta sua adesão ao genocida nazista Adolf Hitler. Conhecida como a “célebre circular secreta 1127/38”, restringia a entrada de judeus no Brasil. Arriscando-se, ao despachar diariamente com o cônsul geral, ela começou a preparar os processos de vistos dos judeus incluindo-os entre a papelada para sua assinatura.
Nessa hora sua vida passara a valer menos que nada. São assim os humanitários. Encontram sentido na vida à medida que a possam doar, incondicionalmente, a quem vier e de onde vier. Salvou muitas vidas e, muitos descendentes de judeus vivem hoje sem saber que as devem a essa extraordinária mulher.
Como presente, Deus lhe enviou o João, que fez a rainha do seu Grande Sertão Veredas, sua Aracy, que sem saber já possuía realeza. O nome Aracy foi parar no Museu do Holocausto em
Washington, sendo entre 18 diplomatas citados a única funcionária. No Jardim dos Justos, uma placa. Em Jerusalém, um bosque chamado Aracy nas cercanias da cidade sagrada. No Brasil simplesmente Aracy Guimarães Rosa, celebrando iluminada de luz própria a glória de ser Aracy do João.
Ao René Daniel Decol, obrigada pelo prazer... em conhecê-la!
BODE EXPIATÓRIO
Os ‘Nationalsozialists’ – eram os nacionalistas, anticomunistas e anti-semitas do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães, também conhecidos por “nazis”. Eles governaram a Alemanha de 1933 a 1945, pregando superioridade ariana liderada por um Führer (líder) infalível, que estabeleceria um Terceiro Reich pangermânico que duraria mil anos. Enquanto isso, aniquilaria judeus e comunistas, bodes expiatórios de todos os problemas da Alemanha. ‘Vade retro Satã!’.
FÚRIA NAZISTA!
A série “história do anti-semitismo” de 1868, escrita pelo novelista anti-semita alemão de pseudônimo Sir John Retchcliffe, expunha os judeus como autores de uma conspiração que queria o controle do mundo.
Os russos traduziram a novela e publicaram-na como ‘Protocolos dos Sábios de Sião’. Diz a história que Hitler os leu e neles inspirou sua fúria de Führer. Mesmo derrotado, caído, ainda esbravejava: ‘contra os judeus lutei de olhos abertos e à vista do mundo inteiro... tornei claro que eles, essa praga parasita da Europa, seriam totalmente exterminados’. Comparava-os a bacilos de tuberculose que haviam infestado a Europa, conta a história.
ALEIJÃO DA HUMANIDADE
As tensões costumam ser deliberadamente transpostas e depositadas em determinados grupos que são eleitos para rejeição e ódio. Raça, etnia, deficiência, homossexualismo, idosos e mulheres não raro se transformam em ‘bola da vez’. A exclusão é uma forma de holocausto. Reinventado sistematicamente, de acordo com o século, assume características cada vez mais perversas.
Pensando bem, dá vergonha de ser humano!
TORPEZA!
A humanidade prima pelo fato de ser uma guerreira torpe, sedenta de vidas. Na virada do século 20, a violência antijudaica na Rússia tem muito a ver com a limpeza étnica da Bósnia na virada do século 21 e da limpeza étnica no Irã e Iraque, demonizado pelos EEUU’s que sofrem os horrores de uma vingança e ganância étnicas. Holocausto do século 21 em pleno vigor! Humanidade versus humanidade!
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