F oi na rodoviária. Enquanto esperava por um familiar que desembarcaria conheci um “vendedor de ervas medicinais” com passagem comprada para Campinas, de onde iria para sua terra, no nordeste do País. Pude ver sua bagagem e seus produtos. Sua estada na Franca do Imperador não fora nada acolhedora ou agradável e só levava recordações ruins.
Disse que havia saído de sua terra no fim de dezembro, passando por Belo Horizonte, Uberlândia, Uberada, Ribeirão Preto e depois, Franca. Por todas as outras cidades por onde trabalhou disse ter sido tratado com dignidade, mas ao chegar em Franca foi ‘severamente’ proibido de vender seus produtos naturais - “cascas e raízes” medicinais que, segundo ele, já ajudaram muita gente daqui, pois a cidade estava em sua rota de trabalho desde 1997, quando iniciou a atividade.
Como uma coisa sempre leva a outra, aquele singelo vendedor que sustenta uma família de sete, e que aparece em casa de dois em dois meses disse: “olhe, seu moço! Na minha terra a coisa é arretada, essa politicada besta se resolve facim facim; temos lá o sêo Clarimundo e suas arraia, aqui seis chama de pipa né? Ele empina as arraia sempre que temo poblema político na cidade; as arraia sobre sempre ao mei-dia e é um “canjerê’ (confusão) só. Pois então, lá num tem rádia nem jornal; é cidade pequeninha, a politicagem lá sempre teve na mão de duas família - entra um sai outro, entra outro sai um e assim vai indo”.
Segundo ele, “Sêo” Clarimundo sempre foi “cabra invocado, já foi seminarista e caminhonero, “brecheiro” (sabe da vida alheia) e peleja contra os “quengo” (cabeças) e os “baludo” (endinheirados) da cidade. E continuou: “Sêo Clarimundo, tem várias arraia, uma de cada cor, cada uma das cor representa uma artoridade da cidade. Os rabo das arraia vareia tamém de cor dependeno da “cagada do cibazol” (vacilo ou erro), e o Sêo Clarimundo sabe de tudim tudim e todo mundo fica pianim: tem um lá que é vereadô faiz tempo e o cabra é “chapéu de touro” (corno manso) a cor da arraia dele é azul e quando ele apronta as dele lá na câmera acontece a empinagem da arraia azul, que tem o rabo verde, então o veradô sabe que o Sêo Clarimundo tá mandano o recado pra se imendá. Tem outro que é abilolado (risos), não sai do “beréu” (prostíbulo) da dona Joaquina que fica na cidade do lado - quando a arraia de cor vermelha e rabo amarelo sobe o peba vai parar até no postim de saúde com a pressão discompensada. O prefeito também tem a dele, roxinha, ele vive “cheio de toddynho” (embriagado), mais o ponto fraco do peba é o fíu que mora em Fortaleza que é “baitola”. Quando faltô leite do pograma da prefeitura pras criança o Sêo Clarimundo empinô a arraia roxa com rabo grande e rosado - foi aquele desnorteio só. Noutro dia apareceu o leite e quem recebia um litro passô a recebê dois, foi só alegria... Ah!
Vou te falar, sei dessas coisa porque Sêo Clarimundo é meu vô, esse segredo de “brecheiro” fica em família, o povo fica tudo “buliçoso” pra descobri os podre que ele só conta mesmo pra mais dois, e eu sô um, pruque sô neto dele”. E ria.
Não resistindo, tive que perguntar ao forasteiro: “diz para mim, meu amigo, quando não se tem o que dizer dos políticos da cidade, o que Sêo Clarimundo faz? E ele: “sempre tem “bozó” (informação ruim) do cabra. Ochenti! Falei tanto de lá, mais aqui. tamém tem dessas coisa, não teim?
Olhei para cima. Pena que não vi nenhuma pipa no céu...
RICARDO VERÍSSIMO JÚNIOR é funcionário público e integrante do Conselho de Leitores do Comércio da Franca
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