A entrada do sobrado antigo, localizado em área nobre da cidade, no Centro, denuncia a situação deplorável onde o professor Roberto Marconi Corrêa, 55, e a mãe, de 86 anos, viviam, até ontem, com 24 cachorros. O chão estava com fezes e mosquitos, pelo menos dois cães latiam insistentemente quando alguém se aproximava do portão e o mau cheiro do interior podia ser sentido a cada vez que o dono abria a porta da casa. Depois de muita insistência, os animais foram levados pela Prefeitura com apoio das Polícias Militar e Ambiental.
A ação durou toda manhã e aconteceu a Rua Couto Magalhães. Essa foi a quarta remoção de grande número de animais feita na cidade em menos de um ano. A Vigilância Sanitária tomou conhecimento da situação na residência há seis meses quando os vizinhos denunciaram problemas com mau cheiro, barulho (latidos) e ataques. Desde então, os fiscais da Prefeitura tentaram um acordo com o dono dos cães, mas não adiantou. Ontem foi cumprida uma ordem judicial de retirada de todos os bichos do imóvel e transferência para o Canil Municipal. “Já estive aqui e falei pessoalmente com o senhor por nove vezes. Conversei, notifiquei, dei prazos para ele retirar, mas não adiantou. Ele também foi multado em R$ 297,60 pelos descumprimentos. A situação não pode permanecer como está”, disse o fiscal sanitário André Szabo. Os fiscais só descobriram que viviam na casa 24 animais depois da remoção. “O dono não permitiu nossa entrada para conferir o total de cachorros. Ele nos informou que seriam 13, mas pelos latidos, há muito mais”, disse André.
A resistência do professor Roberto Corrêa não aconteceu apenas nas outras visitas. Ontem, foram necessárias duas horas até o cumprimento da ação. A presença da oficial de Justiça, quatro fiscais e veterinária da Prefeitura e do responsável pela carrocinha não foram suficientes para convencê-lo. Foi preciso acionar as Polícias Militar e Ambiental e ainda conseguir uma ordem de arrombamento para entrar no imóvel. A equipe chegou às 9 horas, iniciou a remoção dos cães às 11 horas e só terminou às 12h10. Os cachorros latiram o tempo todo.
O dono chegou a acionar Maria Aparecida Tasso, presidente da Uipa (União Internacional de Proteção de Animais) na região, na tentativa de conseguir um outro local para os bichos, mas não resolveu. Ao perceber que não tinha alternativa, começou a entregar os cachorros, levando no colo um a um até passar para Clésio Lima, responsável pela Carrocinha. Ele carregou oito, mas como o processo estava muito lento, o funcionário da Prefeitura passou a laçar os animais.
Quando os fiscais foram vistoriar o sobrado, o proprietário não permitiu que fossem até o segundo piso, onde havia cães escondidos, e recebeu voz de prisão. Foi levado algemado até o 1º Distrito Policial e feito um termo circuns-tanciado de desobediência e resistência. O professor foi liberado e o caso vai para o Fórum.
CURIOSOS
A ação, que contou com uma viatura da PM, da Polícia Ambiental, um carro da Vigilância Sanitária e o caminhão da carrocinha, movimentou o Centro. Populares se aglomeraram na calçada para saber o que se passava. Alguns chegaram a questionar se era prisão de ladrões ou assalto.
Viver sem os latidos, cheiro de fezes e urina e ameaças de mordidas foi um alívio para os vizinhos. Márcia de Avelar, 34, dona de um restaurante na esquina da mesma rua, disse que a remoção aconteceu tarde. “Faz anos que convivo com isso. A rua fica cheia de pêlos, o cheiro é horrível e eu já fui atacada por um dos cachorros”. Em junho de 2007, um dos animais fugiu e mordeu a perna dela enquanto passava pela calçada. “Não tinha marca nenhuma na perna e agora fiquei com a cicatriz da mordida”.
Roberto Corrêa alegou que cuidava bem da cachorrada e que a retirada era por “pura implicância” dos vizinhos. Os animais foram levados para o Canil e permanecerão sob a guarda da Prefeitura. Será preciso aguardar uma definição judicial sobre o destino deles. “Eles não serão sacrificados”, garantiu o fiscal sanitário.
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