Quem quer ver, vê!


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Você lê Chiachiri Filho, o José que é historiador e que foi político, nos cadernos Nossas Letras dos domingos, cá no Comércio? Gosta? Claro. Não há como não gostar. “Chacha”, como é conhecido pelo seu grupo de amizades, é um dos mais lúcidos contistas francanos. Seus textos divertem. Suas lembranças ensinam. A agudeza de seu olhar faz centenas e centenas de vítimas positivas todas as semanas. Mas nem todos sabem que Chiachiri é cego, um cego que ampliou seu olhar sobre a vida quando a retina teimou em não responder mais. Este meu texto de hoje, no entanto, não é sobre o Chacha e muito menos sobre o Luís Quirino de Sousa, outro moço que enxergou uma parte da vida – a exemplo de Chacha – e não “viu” a outra, também traído pela retina. Quero, isto sim, mostrar a você que há vida depois do escuro. Os caras de quem falo, e outros, como o Luiz Cruz de Oliveira, que enfrenta também problemas de retina, estão aí para não me deixar mentir. Se você não sabe, o Chiachiri se senta, todas as semanas, frente a um computador e põe para rodar um software que “lê” para ele tudo o que está na tela. Cada tecla que ele tecla (ops... aperta), o programinha “diz” para ele o que foi “apertado”. Assim, letra após letra, palavra após palavra, frase após frase, ele vai colocando no papel (ops de novo... na tela), suas idéias. Como não enxerga mais, adquiriu o hábito fantástico de criar em sua mente os cenários necessários para compor o que quer contar. Garanto que muitos dos leitores do Chiachiri não sabem que ele não enxerga. Aliás, vão jurar que ele enxerga sim, muito mais que muitos por aí. Eu também penso o mesmo. O começo, no entanto, não foi fácil. Ele me contou que um dia se sentou à frente de um computador e tremeu. Sabia que a máquina assusta os que enxergam. Pensou que não haveria futuro para ele. Soube, então, que um ex-aluno seu na escola fundamental de outra época, o Luís Quirino de Sousa (ele mesmo: um dos personagens da série especial Nossa Gente, com a qual o Comércio da Franca homenageou vários dos cidadãos comuns que ajudam a construir esta cidade) estava na Sociedade Francana de Instrução e Trabalho para Cegos ensinando, gratuitamente, deficientes visuais que queriam perder o medo de computadores, a usarem – e bem – o equipamento. Foi lá. Quirino o recebeu. Ensinou-o a “mexer” com um programa que está no mercado há muitos anos – o “Virtual Vision” – e o Chacha se tornou um serelepe usuário dos computadores. Escreve, comanda a máquina, troca e-mails. Deixou de ser a pecinha que dá “pau” quando está à frente do teclado. O Quirino me contou ontem, quando eu produzia esta coluna, que os programas de hoje permitem que deficientes visuais façam uso sistêmico do computador: podem ser até profissionais de edição de áudio (músicas, entrevistas e quaisquer outros quetais sonoros), para trabalhar em estúdios, emissoras de rádio etc. Ou escritores, como Chiachiri. O software comanda de tudo, até o conhecido “Sound Forge”, ferramenta principal de qualquer estudiozinho de som. Pois bem. Vou parando porque acho que o estímulo que quero dar aos deficientes visuais que querem “esticar” a visão, está feito. Segundo Quirino e Chacha, eles não “lêem mais com os olhos, lêem com o ouvido”. A natureza apurou neles outro órgão de sentido para substituir o que falhou. Ah! Em tempo: o Quirino dá aulas gratuitas de informática na Sociedade dos Cegos com softwares do tipo, há mais de dez anos. Ele é “cobra”. Se você quiser se inscrever, anote aí os telefones : 3725-9212, 3725-9229 ou 3722-9412. O QUÊ? Anote os principais softwares sobre o assunto: “Virtual Vision” (distribuído pela Fundação Bradesco e pelo Banco Real, que pagam pelas licenças e as colocam à disposição de quem precisa. Se for comprar, não custa barato; “Jaws”, disponível através da Fundação Lara Mara, (http://www.laramara.org.br); “DosVox”, produzido pela UFRJ; “Leitura em tela”, do Ministério das Comunicações e CPqQ, disponível no link http://www.mc.gov.br/ 083/08306005. asp?ttCD—CHAVE=1#. Há mais. A LUZ, DE VOLTA Chacha e Quirino descreveram-me as dificuldades para enfrentar a vida em novo tom: o escuro total. E demonstraram como a luz pode voltar, na plenitude: acreditar que é possível. Você já viu o Chiachiri triste? Se não viu, jamais vai ver. Quanto ao Quirino, lembramo-nos de coisas que vivemos há muito tempo. O Grupo Musical Sensasom, da Sociedade dos Cegos, por exemplo. O GRUPO Os “meninos” do Sensasom fizeram o sucesso dos bailinhos de 24 anos atrás. Pedi informações sobre cada um ao Quirino e ele me disse que todos, à exceção do Daniel (guitarrista), que ele acha que se aposentou pelo INSS e do Benê, que trabalhou no Dom Paco (um restaurante que já fechou), Paulo Roberto anda pelo Rio de Janeiro (se não me engano, ele foi um dos meus plantonistas do CVV, um dos primeiros “cegos” a se tornarem plantonistas da entidade, no mundo); Zezé (foi também vendedor de bilhetes da federal) está em Ribeirão Preto; Nelson (baterista), dá aulas de bateria no Jardim Palma em Franca e Jarbas, que mora ainda hoje na Sociedade, trabalha na montadora de caixas da entidade. Estão “on-line” na Internet. Gente que vê, de verdade. FINAL Viu só? Quem quer ver, vê.

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