Às mulheres


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Depois de certo tempo de casamento muitas mulheres passam a reclamar que os maridos não lhes dão a devida atenção, sentem-se deixadas de lado. A atenção diminui mesmo, mas as razões nem sempre são as que parecem. As mulheres não deixam de ser queridas. Com a formação da família surgem muitas coisas para disputar com a mulher a atenção do marido. Filhos, trabalho, compromissos... No corre-corre, o dia fica pequeno e acaba reduzindo as oportunidades dos cônjuges de desfrutarem seus momentos juntos. Na estafante rotina, a amada, ‘eterna namorada’, deixa de ser a única imagem que ele tem projetada na retina. E vice-versa. A mulher, trabalhe fora ou não, também tem inúmeros afazeres e à noite sucumbe ao cansaço. É normal que aquele amor impetuoso dos primeiros anos se acalme, fique mais sossegado. Mas mulher é sensível, romântica e gosta de ser lembrada, cortejada, e sempre espera o merecido afeto. Algumas, porém, exageram quando culpam os maridos pela sua solidão. O homem deveria, ‘sponte propria’, propiciar à amada aquilo que ela merece. Mas, se não o faz, a mulher não pode se limitar a ficar esperando. A relação requer interação; é dar e receber. O casal é formado por duas pessoas inteiras, não por duas metades. Não pode haver a idéia de que um completa o outro. Não se pode perder a individualidade, a personalidade. Cada um é um para que dois possam compartilhar bons e maus momentos, dividir tarefas, enfim, lutar juntos para alcançar o que se propuseram quando da união. Se um se encolhe com a sensação de que lhe falta algo e cobra isso do outro, é mau sinal, pois provavelmente esse vazio é daqueles que precisam ser preenchidos pela própria pessoa. Vi na Internet: num seminário para casais perguntam a uma esposa se o seu marido a faz feliz. Ela responde que é feliz por decisão própria, porque escolheu, já que ela é a única pessoa de quem depende para ter felicidade. É para refletir, não? O casamento não é o fim da história. A vida não é um filme. O matrimônio só dá certo se cada cônjuge assumir a sua responsabilidade, fizer a sua parte, ao invés de fiscalizar e querer manipular o outro. Cada um deve ser o próprio fiscal. Muitas vezes é preciso ter coragem de admitir que se está cobrando do outro algo que deveria ter/estar em si mesmo. A natureza sonhadora, romântica da mulher não pode transportá-la para fora da realidade. ‘Sei que você fez os seus castelos / E sonhou ser salva do dragão / Desilusão, meu bem / Quando acordou estava sem ninguém...’ (“Mesmo que seja eu”, de Roberto e Erasmo Carlos). É preciso ter os pés no chão. Não se deve querer moldar o marido usando como parâmetro astros do cinema, da televisão. Estes, na vida real não têm tantas virtudes assim. Os homens da vida real, em regra, são um tanto quanto desligados, dispersos. Qual mulher nunca perguntou: ‘você está me ouvindo?’, e nunca ouviu: ‘não me lembro de você dizer isso’? No geral, se o saldo é positivo, se o marido é um bom homem, dêem um desconto. Perdoem o esquecimento, a falta de jeito, a desorganização. Por trás de tanto defeito tem um coração. Vão à luta e derrubem os obstáculos que rivalizam com vocês na atenção. Não queiram ser completamente compreendidas. O homem não tem o dom da adivinhação, de perceber que há um “sim” por trás de um “não”. Pode não parecer, mas nós somos cheios de preocupação. Se vocês demoram, vem uma inquietação; a alma, porém, fica aliviada quando a chave gira na fechadura, apressada, anunciando com agitação a sua chegada. Mulheres, creiam, mesmo levando a tantos porquês, nós, esses seres atrapalhados, não sabemos viver sem vocês. Paulo Pereira da Costa, promotor de Justiça e autor do livro ‘Pensando na Vida’. E-mail: paulopereiracosta@uol.com.br

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