É a figura discreta que transita pelos bastidores do poder e que, em muitos casos, tem seu cargo esvaziado de atribuições perante a máquina pública e vê sua trajetória de “vice” caminhar a largos passos para o ostracismo inevitável.
No jogo político vale tudo. O titular do cargo que é o chefe, que é o cara, que é o bam-bam-bam ou o supra-sumo do pedaço seja na esfera: municipal, estadual ou federal, constrói seu governo imprimindo nele a sua “sublime” identidade, dando vida às suas idéias, materializando-as sempre de modo absolutista.
Enquanto isso, o ‘vice’, aquele mesmo que aparecia nos comícios, na propaganda eleitoral gratuita, de ombro colado com o candidato principal nos ‘santinhos’, amarelando um sorrisinho cansado, após a vitória é lançado a lugar não sabido e sem atribuições relevantes.
O tratamento dado ao “vice” por parte do detentor da cadeira de governante, não obstante, reflete de alguma maneira o tratamento que é dispensado à população, pois, convenhamos, se o companheiro de chapa do “titular” – parceiro no sonho pela conquista, co-idealizador de programas de governo compartilhado na campanha que precedeu a vitória –, após o retumbar glorioso da diplomação democrática, afasta seu “vice” do banquete da liberdade e da participação e o encerra no porão do esquecimento, dos sem vozes, torna-o mais uma vítima do orgulho-centralizador e da miséria humana que possuem os arrogantes e retrógrados.
Noutra esfera, encontramos um ex-metalúrgico alfabetizado em missão ao estrangeiro e que demonstra grandeza e virtude ao transferir seus poderes “por algum tempo” a um José de Alencar-vice que, mesmo em meio ao combate renhido contra um câncer, assume a presidência do País e luta como sempre lutou, a exemplo de sua história de vida como oriundo das castas inferiores da sociedade e que provou ser possível mudar o curso e galgar posições mais ambiciosas na vida, tornando-se empresário notável e alcançando a vice-Presidência da República por duas vezes.
Sem paixões nem romantismos – pois esses sentimentos são descabidos quando se trata de ‘política’ – penso que ainda é possível erigir condutas dignas e respeitosas com outros seres humanos que compõem esse meio tão melindroso e repleto de vaidades como é o do poder.
Saber que a efeméride permeia todas as coisas é sinal de sabedoria. Não é aconselhável se atracar freneticamente ‘ao osso’ dizendo, ‘é meu, só meu, tira a mão que aqui ninguém tasca’, pois é sabido que esse mesmo “osso” apenas foi confiado e compartilhado pelo seu dono (o povo) por “tempo determinado”.
O “vice” merece ser visto com um olhar mais sábio, tanto pelo titular do cargo como pelo seu povo. É o “vice” o fator de equilíbrio deveras importante, possuidor de experiência acumulada em muitos sentidos, merecedor de espaço num governo. Merece ser consultado e, ao opinar sabiamente, ser ouvido e respeitado. A propósito, “vice” até ganha eleição e é pródiga a história brasileira neste contexto...
RICARDO VERÍSSIMO JÚNIOR é funcionário público e integra o Conselho de Leitores do Comércio da Franca
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