eados de 1979: “Sou pró um Instituto de Preservação da Vida”. Cá no Comércio, naquele ano, iniciei com estas palavras, movimento que resultaria na instalação de um posto do CVV Samaritanos (como era conhecido o Centro de Valorização da Vida, entidade internacional) na cidade.
Na época, falar no rádio ou usar artigos de jornal para falar de tentativas de suicídio me frustrava, me descompensava.
Tinha acabado de perder a companhia de dois amigos radialistas para o suicídio. Iniciava, com aquela frase e com o aval de Corrêa Neves e Sônia Machiavelli, uma fórmula para tentar inibir o número de tentativas e consumações contra a vida: passávamos a não divulgar as formas com que suicidas tentavam pôr termo à vida. Pasmem, mas já tínhamos percebido que, quando contávamos, havia um incremento do número de casos, dias após.
Clamei por médicos, psiquiatras e psicólogos, padres, freiras, pastores, autoridades, estudantes e interessados em “brigarem” pela vida, a se encontrarem para estudar as bases de uma entidade, “uma instituição de forças”, destinada a reduzir a escalada das mortes ou de seqüelados por ações frustradas em busca da morte.
Centenas compareceram à primeira reunião, realizada no prédio da AEC. Ao verificar a origem de cada um, surpreendi-me. Havia sim, médicos, psiquiatra, psicólogo, profissionais liberais, mas em número restrito. A maioria era gente simples, desconhecidos, de bairros distantes. Aprendi ali a primeira das grandes lições que ainda viriam: o voluntariado, aquele que remete a que se dê uma das mãos sem que a outra saiba, está no coração das pessoas simples.
Nos outros encontros, o número dos “grandes” se reduzia, mas crescia a quantidade de “pequenos”. Seria, afinal, com os “pequenos” que os planos iriam andar. Soube do CVV, uma entidade que estava no Brasil havia alguns anos. E que em Ribeirão Preto um posto da entidade já estava funcionando.
Convidei seu coordenador para vir a Franca e o Dr. Allan Kardec Gonzalez veio. Nos ensinou a segunda grande lição, na forma de um balde de água fria: “desistam de inventar. Optem sempre pelo que já existe. Ganha-se tempo e salvam-se vidas mais rapidamente”.
Trouxemos o CVV para cá. A instalação, segundo as normas do CVV internacional, não foi fácil. Foram necessários mais de três longos anos para consolidar o posto. Há histórias muito bonitas para contar sobre estes tempos heróicos, mas opto por dizer apenas a essencial: os números de tentativas de suicídio caíram na cidade. O mérito foi todo dos desbravadores e anônimos plantonistas voluntários que conosco somaram. Não havia tempo e nem hora para manter plantões disponíveis. Havia gente que dobrava o tempo que dedicava à entidade e aos que queriam desabafar. Desabafar?
É isso mesmo. Estive com Edward Chad Varah, o reverendo anglicano de nacionalidade indiana que fundou o Befrienders International, obra que deu origem ao CVV Samaritanos, e ainda me lembro do que me cochichou ao ouvido: “Mr. Lima, jamais dê conselhos e jamais interrompa quem está com vontade de falar. A oportunidade de desabafar é tudo do que as pessoas precisam para verem a vida de forma mais adequada e não se sentirem ameaçados”.
Disse-me, também, na mesma oportunidade: “Grato pelo calçado Donadelli que me deu. Vou celebrar vestido com ele na Catedral de Saint Paul, em Londres. E me não fique bravo porque vou beijar o rosto de sua mulher que permitiu que o senhor fosse voluntário na obra essencial a que nos dedicamos”.
Chad Varah morreu em 12 de novembro de 2007, aos 95 anos, depois de deixar funcionando 401 postos de atendimento em 40 países, capazes de socorrer pessoas com depressão à beira do suicídio, 60 só no Brasil. Nunca cansei de dizer a meus plantonistas francanos que “Se fizermos o suficiente para salvar uma única vida, já valerá a pena”. Também esta frase foi de Chad, ao final do encontro que tivemos em São Bernardo do Campo (SP).
EM FRANCA
Você deve estar se perguntando por que falo do CVV. Explico: a entidade, que fará 28 anos em Franca este ano, precisa ampliar o número de plantonistas para as 24 horas de plantão diários . É indispensável que as pessoas que procuram caminhos para uma atuação voluntária coloquem o CVV dentre as opções. Quem se torna plantonista também se torna um ser humano melhor porque reaprende a praticar importante virtude que o ser humano insiste em deixar para lá: ouvir!!!
NÃO DIRETIVO
Na atividade do CVV, o voluntário se transforma em âncora para quem pensa em dar termo à vida ou a quem se julga impotente para resolver seus próprios problemas. E, garanto, sem dar nenhum conselho. Carl Rogers ensinou que existe um “aconselhamento não-diretivo” e que essa modalidade faz um bem danado para pessoas que se respeitam quando conversam. E é isso que o CVV faz.
EI, VOCÊ
Está assustado? Não fique. Ande devagar, mas ande para a frente. Ligue ao 141 e diga que quer saber mais sobre o traba-lho. Se estiver disposto, inscreva-se em um dos cursos de seleção. Não é nada duro ou intransponível. Se você tiver condições, vão lhe dizer. Aí, você vai optar. Quer mesmo? Então você vai crescer como ser humano. Se não quiser, nada vai obrigá-lo. Certamente os ensinamentos recebidos vão melhorar sua capacidade de ouvir o outro; a empatia – a capacidade de se envolver emocionalmente com o outro – não será mais um fenômeno desconhecido em sua vida.
TODOS IGUAIS
Deixe de lado as máscaras sociais, as desculpas sobre pouco tempo a dedicar, os títulos das escolas que alcançou, a chatice de sua vida. No CVV igualam-se todos na simplicidade. São iguais, voluntários e anônimos aqueles que se dedicam a tornar a vida do outro, melhor.
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