Satisfação


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M ick Jagger canta ‘I can’t get no satisfaction...’ e vejo pessoas que têm tudo de que precisam para sentirem-se satisfeitas, dominadas por uma eterna insatisfação. Penso que esse vazio existe porque para preenchê-lo se procuram coisas erradas, lugares errados, meios equivocados. E nessa busca, ao invés de se encontrar, a gente se perde. É como canta Lenine: ‘Solidão, o silêncio das estrelas, a ilusão / Eu pensei que tinha o mundo em minhas mãos / Como um deus / e amanheço mortal / E assim, repetindo os mesmos erros, dói em mim / Ver que toda essa procura não tem fim / E o que é que eu procuro afinal?’ (em “O silêncio das estrelas”). O filósofo Sócrates, observando os mercadores, dizia: ‘Quanta coisa existe de que não preciso para viver’. O ser humano precisa delimitar os desejos ao que é realmente necessário para obter satisfação, que com certeza não está em alimentar sonhos de consumo “ad infinitum”. A satisfação, o êxtase estão no íntimo. Para alcançá-los é preciso buscar a lucidez, a clareza da mente. É a harmonização, a integração das nossas limitações às leis da natureza que pode propiciar maior contentamento com a vida. O que se vê, entretanto, é o oposto. A satisfação não está onde a procuraram os músicos Cazuza, Renato Russo, Jim Morrison e tantos outros. Iludidos, supondo ter o mundo nas mãos, eles foram procurá-la em outra dimensão e pela via errada: o embotamento dos sentidos, a alienação por drogas, álcool. Talento, dinheiro, sucesso, etc. não tornam ninguém diferente dos outros mortais. Vida desregrada, excessos, vícios têm efeito nocivo tanto para o rei quanto para o súdito. Nesse aspecto não há diferença nenhuma. Disse o pensador Lucano: ‘Mais aprazível é a virtude quando nos custa caro’. Para mim, prezar a virtude leva à satisfação. Resistir a certas tentações é de fato difícil. Mas é o sacrifício que acaba gerando maior satisfação. Quanto mais se agir de acordo com as regras naturais, maior o preenchimento das carências e, conseqüentemente, de contentamento com a vida. Quem determina o tanto de comida e bebida não é a boca nem são os olhos: é o estômago. E este se satisfaz com bem menos do que aqueles. Rico não é quem mais tem, é quem de menos precisa. Parece mero jogo de palavras e, em princípio, pode significar que quem precisa de menos é porque já possui mais. A interpretação correta, porém, é: quem com menos se contenta é mais feliz. Rica não é a pessoa que possui mais bens materiais: é a que tem menor nível de carência. A ausência de carência em relação a certos bens não é, necessariamente, porque a pessoa já os possui; pode ser porque não os deseja, não sente necessidade deles. Ou então até deseja, mas não de forma prioritária, a ponto de sacrificar coisas mais importantes para obtê-los. Quanto menor a necessidade ou dependência de certas coisas, maior o grau de liberdade da pessoa, e liberdade é um dos bens mais preciosos. Todos são iguais perante a natureza. A vida é curta, há altos e baixos, o amanhã é incerto. As pessoas envelhecem, adoecem, morrem. Há fatos inexoráveis que nem todo o dinheiro do mundo pode impedir. Preencher as lacunas da alma e encantar-se com a vida requer mudança de atitude para alcançar um equilíbrio entre as nossas aspirações e as imposições naturais. Não se deve sentir vazio pela falta do que se possa querer. É preciso valorizar o que é possível ter. Será que o que está à mão, o que dá para fazer, já não é suficiente para trazer satisfação? É bom voar, mas apenas em sonhos e na imaginação, pois, na real, bom mesmo é andar, manter os pés no chão. PAULO PEREIRA DA COSTA é promotor de Justiça e autor do livro Pensando na Vida – E-mail: paulopereiracosta@uol.com.br

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