A visão infantil dos fatos depende muito daquilo que os adultos fazem, principalmente os pais. Claro está que podem ocorrer desvios, as exceções pipocam por todos lados para mostrar desatinos de pessoas oriundas de famílias exemplares. Mas isso acontece porque nos dias atuais a mídia bombardeia o universo mirim, provocando distorções no modo de agir momentâneo ou futuro.
No entanto, de qualquer maneira, é o mundo adulto que molda o infantil. Não tem como sair disso. Até o ex-jogador de futebol Maradona, de vida tão desregrada, reconheceu em recente entrevista o valor dos bons exemplos passados por sua família.
Ele proclamou o valor de seu pai, afirmando o quanto de ensinamentos bons recebeu na infância,mas se disse um mau aprendiz, aceitando interferências externas de colegas, companheiras e amigos. O resto todo mundo sabe, pois este Comércio sempre noticiou passagens da conturbada vida de Maradona.
De nada adianta reclamar sobre o comportamento social. Parte da solução está em exemplos. Prova disso está na reação de um garotinho de apenas seis anos, com consciência perfeita sobre preservação da natureza. Quando vê papéis jogados na via pública, ele lastima: coitado do peixe, a chuva vai levar o papel para o rio, ele come e morre. Para o menino, tudo se entrelaça no meio ambiente.
Isso foi passado ao garoto através de exemplos, conversas e principalmente leituras feitas para ele. Com o pouco que lê, basta ver uma palavra e já quer explicações. Folheando uma enciclopédia, deparou-se com o verbete crocodilo. Pediu ao avô para ler as legendas das ilustrações. Ao saber que na Índia há muitos jacarés, além da vaca, também um animal sagrado, encontrou a solução para a extinção do réptil, dizendo: “Já sei, vai ter destes no Brasil. É só o governo mandar fazer placas escritas: ‘sagrado’ e colocar nos jacarés. Questionado sobre a moda feminina, saiu-se com esta: “Bom. As mulheres farão casacos e bolsas de tecidos...”.
Santa inocência e santa ignorância. Quem é que vai respeitar alguma coisa sagrada por aqui? Dificilmente se respeita o aspecto humano em todos os sentidos.
Dia desses, um cachorro foi atropelado na Rodovia Cândido Portinari, nos fundos da Vila Santa Luzia. Acabou morrendo no acostamento. Devido à presença de urubus, funcionários da concessionária de pedágio arrastaram o animal morto para perto do barranco e simplesmente o cobriram de terra. Não deu outra, veio a chuva e descobriu o cão, que lá está empestando toda a redondeza.
Se o serviço público ou até mesmo terceirizado não consegue enterrar um cachorro morto, que está atrapalhando o equilíbrio ambiental, o que esperar então da vontade infantil em decretar que o jacaré seja sagrado?
ANTÔNIO ARAÚJO é professor. E-mail: tonin.palavras@uol.com.br
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