Madeira em forma de coruja e jacaré, jogo de sofá de madeira, cestos de bambu, rede e colares de conchas. As peças artesanais confeccionadas por índios do Xingu estão em exposição até domingo, das 7 às 18 horas, no terreno da frente de uma residência, ao lado do Banco do Brasil, na avenida Integração.
Na tradição indígena, os homens são responsáveis pela alimentação do seu povo. Por essa razão, de três em três meses o índio Tawaku Kuikuro, 34 anos, deixa a sua tribo (formada por cerca de 100 índios), na Aldeia Morená, localizada no Parque Indígena do Xingu, no Estado do Mato Grosso, para vender o seu artesanato.
Mesmo com pouco conhecimento da língua portuguesa, ele conta que para chegar até a cidade mais próxima, Canarana, precisa andar durante 11 horas de barco, levando na bagagem o seu sustento: o artesanato. Lá, se encontra com a artesã e artista plástica Celina Nogueira Lima, 61, e a caravana formada por quatro pessoas parte em busca de bons negócios.
Ontem eles chegaram a Franca. “Estávamos a caminho de Goiânia, mas ao passar por aqui sentimos um alto-astral, uma ótima expressão espiritual e decidimos ficar. Adoramos a cidade, populosa, bem estruturada e acolhedora”, afirma Celina.
DA NATUREZA PARA AS MÃOS DOS ÍNDIOS
O caminhão vem com a carroceria lotada de arte, cerca de 80 peças entre mesas, cadeiras, cabeceira de cama, bancos, esculturas em forma de animais e aparadores. Todas as peças são feitas à mão. “A natureza faz parte da vida do índio. Eles têm um dom especial de Deus, transformam os animais com que convivem no dia-a-dia em peças artesanais”, ressalta Celina.
As peças indígenas são facilmente identificadas. Os bancos de madeira têm formatos descontraídos, com um toque colorido, feito com uma tinta natural de jenipapo e outros componentes. Os cestos são feitos de taboca, um tipo de bambu, e as bijuterias (colar e cinto) de conchas e fios extraídos do talo do buriti. Para transformar os objetos em arte, o índio Tawaku utiliza apenas a sua habilidade manual e um facão. ‘Cada peça demora de dois a três dias para ser feita’, conta.
Quem olha a rede de dormir não imagina que também é feita com uma ajuda da natureza, mas confeccionada pelas índias da tribo, sob o comando da mulher de Tawaku, a índia cacica, Aialu Kamaiura. “Os fios extraídos do talo do buriti são enrolados e trançados um a um pelas mulheres”, explica.
PARCERIA QUE DEU CERTO
A artesã Celina conta que na região do Xingu existe uma boa relação entre brancos e índios. “Há anos trabalho com os índios, já participei de várias exposições com índios de outras tribos”, afirma.
As peças produzidas pela artista são rústicas e imponentes. O jogo de sala substitui o sofá, pelo conforto e beleza. “Crio as minhas peças na fazenda, onde moro. Transporto a beleza selvagem para a cidade”, disse.
De acordo com Celina, todas as madeiras e objetos utilizados na confecção das peças são ecologicamente corretos, sem prejudicar o meio ambiente. Os artesãos trabalham com várias espécies de árvores: pitanga da mata, guarantã, cipós, galhos e outras. “Recolhemos os troncos de árvores derrubadas ou ganhamos dos fazendeiros antes das terras autorizadas serem devastadas, e para dar forma à madeira, utilizo poucas ferramentas, como o facão, o formão, o serrote e a motosserra”, revela.
Os artistas esperam vender todas as peças em Franca e os preços são sob consulta. “Nossos produtos têm muita durabilidade, praticidade e são exclusivos”, indica Celina.
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