O telefone tocou na manhã de sábado na redação do Comércio. Do outro lado da linha, uma voz embargada, abatida, quase inaudível. “Edson, é o Marco Aurélio, eu não sumi, não. Estava internado”. O ex-presidente da OAB, alegou ter passado a sexta-feira em um hospital por causa de uma crise nervosa e por alteração na pressão arterial. Herança dos recentes acontecimentos. O golpe sofrido parece ter sido duro.
Na quinta-feira, 3, o advogado se tornou o pivô central de uma grande confusão. Logo após deixar sua casa para depositar R$ 73,7 mil em um banco, foi abordado por dois homens que, segundo a PM, seriam assaltantes. Uma viatura da polícia passava por acaso pelo local. Os indivíduos da moto saíram correndo e deixaram para trás a pasta com o dinheiro, um capuz e um revólver (veja detalhes no quadro acima). Foram presos ainda por perto. Um dos acusados é o carcereiro Gilberto Aurélio Barbosa Gilberti, irmão de Marco Aurélio. Inicialmente, disseram, em off, para a polícia que “aquilo era coisa de família” e que teriam sido chamados pelo advogado para simular um roubo. Em depoimento, garantiram que faziam apenas uma escolta de valores. Marco Aurélio, por sua vez, chegou a negar a exis-tência da pasta, negou o assalto e repetiu a versão da escola.
A mudança repentina nas versões, a falta de lógica para explicar os rastros de indícios deixados e a tese de uma suposta e mirabolante armação conjunta das Polícias Civil, Militar e testemunhas fortalecem a hipótese da polícia, que acredita que a ação foi planejada pelo ex-presidente da OAB para fins ainda não esclarecidos. “Estou convicto de que houve uma simulação de roubo. Agora, o que está por trás disto, o que eles intencionavam simulando este roubo, é o que precisa ser apurado. As versões dos militares e de testemunhas têm se mantido firmes, ao contrário da do advogado. Vamos apurar os motivos que levaram à prática da simulação”, afirmou em entrevista gravada ao Comércio, o delegado seccional de Franca, Maury de Camargo Segui.
A apuração da ocorrência de tentativa de roubo será de responsabilidade dos agentes do 4º DP. Nos próximo dias, Marco Aurélio e seu funcionário serão intimados a prestar depoimento. O desafio da polícia é descobrir qual era o real destino do dinheiro e por quais motivos teria havido a suposta simulação de um roubo a pedido do ex-presidente da OAB. “Nós imaginamos, num primeiro momento, que a finalidade era de vantagem econômica. Se há este tipo de vantagem, alguém está sendo lesado”, comentou Maury de Camargo. O dinheiro foi depositado na conta de Marco Aurélio sexta-feira.
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Entrevistado pelo Comércio, ele refutou qualquer possibilidade ter preparado algum golpe. Garantiu que o dinheiro era todo dele e que não havia seguro. Teria sido sacado no fim do ano e seria investido em aplicações diversas na agência do Bradesco (leia matéria nesta página). O ex-presidente da OAB é sócio dos advogados Setímio Salerno Miguel e Daniel Arruda em um escritório de advocacia. Setímio passou a tarde de quinta-feira na sede da Delegacia Seccional acompanhando os desdobramentos do caso.
Voltou ao local na madrugada de sexta-feira e tentou convencer o seccional de que não tinha nada a ver com o dinheiro. O advogado foi procurado pela reportagem para falar sobre o caso, com duas ligações para sua casa e duas para seu escritório na última sexta-feira, mas não foi encontrado e não retornou as ligações.
Marco Aurélio tenta alimentar a tese de que teria sido vítima de uma armação, supostamente arquitetada pelo chefe da Polícia Civil. No caso, a trama teria a participação dos policias militares, que foram os responsáveis pela prisão do irmão dele no dia e pela condução da moto com a placa coberta até a delegacia. “O castelo vai desmoronar. Não teriam motivos para inventarmos tantos detalhes. Não vai ser fácil ele convencer a Justiça. Não é nada lógico sacar o dinheiro e depositar dias depois no mesmo banco”, rebate Maury de Camargo.
As complicações podem respingar até mesmo no pai de Marco Aurélio, policial aposentado. A arma usada pelo carcereiro na quinta-feira era do pai e ele a deveria ter entregue quando deixou a polícia. Pode responder por porte ilegal ou peculato.
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