<p>Encarar uma religião como fonte de todas as benesses que se possa alcançar na vida é uma experiência que até hoje ainda não consegui realizar. Viver dentro de uma organização religiosa como se o simples fato de ser um de seus integrantes garantisse a tão desejada vida eterna é algo que nunca entendi, embora já tenha, juro, feito algum esforço. Escrevo em primeira pessoa, porque a entrevista a seguir é a síntese de uma conversa que tive com o bispo de Franca, Dom Caetano Ferrari. </p>
<p><br />Pela primeira vez o encontrei desde que assumiu a diocese, em novembro de 2006. Ele, o homem eleito pelo papa Bento XVI para comandar os fiéis católicos em Franca e região. Eu, alguém que está muito longe de acreditar na existência de Deus, quanto mais na figura mítica pintada pela Igreja Católica, ou sequer na necessidade da existência da religião. </p>
<p><br />O encontro com Dom Ferrari durou exatos 75 minutos, tempo suficiente para falar de alguns dos dogmas mais fervorosamente defendidos pelos católicos. <br />Homossexualismo, pedofilia e as desculpas que a Igreja Católica deve ao mundo pelas práticas seculares de guerras, omissões, perseguições e execuções foram alguns dos temas abordados. </p>
<p><br />Afinal - Deus está somente dentro dos grandes templos? Onde está Deus? Foi a primeira pergunta que fiz a dom Caetano Ferrari. Confira os melhores trechos da entrevista. </p>
<p><strong>Comércio da Franca - Bispo, onde está Deus?<br />Dom Caetano Ferrari -</strong> Deus está em todas as coisas, todos os lugares. Essa é a resposta mais simples do catecismo. Não conseguimos nos esconder dele, porque ele está, primeiro, na consciência de cada um de nós. Encontramos Deus no relacionamento com o outro, sobretudo o necessitado, o pobre. Não precisamos ir a lugar algum para encontrar Deus, para isso basta nos debruçar sobre nós mesmos. Deus está em todo o universo. Podemos ver seus sinais em todos os lugares. Quando vemos o céu estrelado, não é para se questionar quem fez aquilo? Veio do nada? Encontramos Deus no drama da vida humana, nas alegrias, nas tristezas. Não precisamos buscá-lo fora de nós. </p>
<p><strong>Comércio - Se eu te disser que não o vejo e que não acredito na existência de Deus, eu seria, sob sua ótica, um ser humano condenado?<br />Dom Caetano</strong> - Tenho a seguinte impressão. Você não deve acreditar em certos conceitos a respeito de Deus. É preciso perguntar quem seria Deus para você. Você não valoriza o amor, que é algo fundamental na vida? Se você é capaz de amar, você, de algum modo, acredita em Deus. Pode até não acreditar no Deus de uma determinada religião, de determinado credo. Você pode ter dificuldade em aceitar certo tipo de Deus, de divindade, e em aderir a alguma igreja. </p>
<p><strong>Comércio - É errado ou impossível alguém acreditar em Deus sem participar de nenhuma religião?<br />Dom Caetano</strong> - Por causas das razões humanas, toda igreja é uma instituição humana e divina. E aí mistura a graça e o pecado, com seus erros, limitações, mas com suas coisas grandiosas também. Mas acreditar já é alguma coisa. </p>
<p><strong>Comércio - Há salvação fora da igreja Católica?<br />Dom Caetano</strong> - Claro que sim. Aqueles que não são cristãos, mas professam outra fé, como os islâmicos ou budistas não serão condenados por isso. <br /></p>
<p><strong>Comércio - O Papa Bento XVI declarou que a Igreja Católica era a única e legítima representante de Cristo na Terra. O senhor acredita na legitimidade das outras religiões?<br />Dom Caetano</strong> - Temos que respeitar, sim. Por isso temos o ecumenismo ecumênico entre as religiões de origem cristã. Entre as igrejas das mais diversas origens, mantemos o diálogo inter-religioso. Respeitamos as outras tradições, mas o que defendemos é que a igreja católica é a única que desde o início, foi fundada por Cristo e seus apóstolos. Com o passar dos séculos, ocorreram divisões. As outras igrejas, evangélicas e protestantes, têm a participação nessa verdade bíblica, mas não sua plenitude. </p>
<p><strong>Comércio - Por que se disseminaram nos últimos anos os casos de pedofilia, além do homossexualismo, dentro da Igreja Católica?<br />Dom Caetano -</strong> Olha, acho que virou uma onda em relação a esse assunto. Em primeiro lugar, não tenho os estudos, mas foi revelado que o percentual de casos dentro do clero é normal, comparado às outras classes sociais. Não existe um fenômeno deferente. A igreja é formada por pessoas. As estatísticas mostram que os casos não são preocupantes. Acontece que os casos dos Estados Unidos ganharam destaque na mídia. Estão cobrando da igreja casos de 50, 60 anos atrás, de pessoas que nem são padres mais. É uma indústria de indenizações. </p>
<p><strong>Comércio - Em um ambiente que prega a rigidez nos relacionamentos, o temor a um Deus supremo, entre outras coisas, é onde menos se poderia aceitar um comportamento assim. <br />Dom Caetano</strong> - Se fosse uma igreja de santos, apenas, tudo bem. Mas é uma igreja de homens. Não podemos aprovar o ato errado, de forma alguma. Mas o que vamos fazer - expulsar sumariamente? Temos que tratar e tirá-lo do convívio com a comunidade. Se a família não expulsa um filho na mesma situação, por que a igreja faria isso? Se cometeu algum ato ilícito, ele vai pagar por isso. A igreja não é conivente com isso.<br /></p>
<p><strong>Comércio - Já que estamos falando de seus integrantes, a divergência de opinião dentro da instituição compromete sua hegemonia? A igreja Católica tem medo do recado que possa ser dado a seus fiéis, como foi o caso da Teologia da Libertação?<br />Dom Caetano</strong> - Em primeiro lugar é muito bom que existam pensamentos diferenciados. O Vaticano não condena esses movimentos, como a Teologia da Libertação. O que a igreja faz é corrigir quando, tanto para a esquerda quanto para a direita, excedem os limites. Há movimentos conservadores e de esquerda que são afastados porque cometem atos além do aceitável. A Teologia da Libertação não foi condenada, porque é própria da América Latina, diferente da teologia que se aplica na Europa, que é uma linha mais clássica, e que também nem sempre deve ser a dominante. </p>
<p><strong>Comércio - O uso das palavras demônio, inferno e pecado não representam uma coerção excessiva da igreja sobre seus fiéis?<br />Dom Caetano</strong> - Não na igreja católica. Talvez isso ocorra mais nas igrejas evangélicas. </p>
<p><strong>Comércio - A crença em Deus só se exerce dentro de um templo? Eu não conseguiria me encontrar com ele em uma esquina, no campo ou em uma praça? <br />Dom Caetano</strong> - Eu acho que não, acho que não. Deus não entra em relação direta e individual comigo. Deus fez uma aliança com a comunidade. Não há uma relação personalizada com Deus. </p>
<p><strong>Comércio - Mas então eu, sozinho, não consigo me comunicar com Deus?<br />Dom Caetano</strong> - Sim, consegue, mas a dimensão comunitária é essencial. Não somos seres que vivemos isolados. Deus nos chama como povo e nos coloca no seio da comunidade. Você não vive sua fé sozinho. É enganação aquele que diz que se comunica com Deus tendo um Santo Antônio ou um Buda em casa. Isso não existe. <br /></p>
<p><strong>Comércio - Em sua essência, as religiões são todas iguais?<br />Dom Caetano -</strong> Não, não são. Existem igrejas e igrejas. Essa história de que todas as religiões são boas, é uma ‘ova’. Existem igrejas que não podemos aceitar. É preciso selecionar... Você diria que todos os times de futebol são iguais? Não são (ele é são-paulino roxo). </p>
<p><strong>Comércio - Houve passagens envolvendo a Igreja Católica, como papas empenhados em guerra, as Cruzadas, a Santa Inquisição, os Jesuítas no Brasil declarando que os negros não possuíam alma, entre outros episódios. A Igreja Católica não tem pecados demais?<br />Dom Caetano</strong> - Veja só. A igreja tem um lado humano, e nesse lado, o pecado existe. Há muitos erros. Mais de um papa já pediu perdão pelos erros cometidos no passado. Mas pergunto se a razão humana, a ciência, teve a mesma postura? A igreja carrega seu fardo histórico. Mas nem tudo o que se fala sobre a igreja pode ser aceito. Sobre a Inquisição, por exemplo, foram menos condenados pela fé e mais, por questões políticas e filosóficas... </p>
<p><strong>Comércio - Sobre as mulheres - como se explica o papel secundário que ela desempenha na instituição?<br />Dom Caetano</strong> - Existem coisas que são próprias da mulher e que o homem não deve pretender. E o contrário, também. Na tradição evangélica cristã, Deus chamou os homens para esse serviço. Digo a elas que Deus deu às mulheres o maior dom de todos, que é gerar a vida. </p>
<p><strong>Comércio - Por fim, o senhor não vê irresponsabilidade da Igreja ao pregar o não uso de preservativos nas relações sexuais?<br />Dom Caetano -</strong> A Igreja aprova todos os métodos naturais para o controle da natalidade, mas nenhum artificial. Se o casal não fizer planejamento, vão ter filhos. Isso a Igreja não quer. A igreja prega a castidade, de fazer o sexo na hora certa, não a qualquer hora.</p>
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