No mês passado, a Justiça italiana emitiu uma ordem internacional de prisão contra 146 militares e policiais sul-americanos que participaram da Operação Condor nos anos 70 e 80. Na lista há 13 brasileiros, alguns já falecidos. A referida Operação, como se sabe, foi um pacto firmado em 1975 entre os países do Cone Sul, mediante o qual seus respectivos serviços de inteligência trocavam informações sobre grupos terroristas de esquerda – Montoneros na Argentina, MIR no Chile, Tupamaros no Uruguai, ALN e VPR no Brasil, etc – que cruzavam as fronteiras na região para escapar à repressão e estabelecer “bases” fora do alcance da jurisdição nacional. Eventualmente, a Operação Condor ia além do intercâmbio de relatórios e incluía deportações. Assim, quando guerrilheiros argentinos se estabeleciam no Paraguai, o governo deste país os capturava, informava Buenos Aires e os entregava às autoridades portenhas.
O Brasil se envolveu pouco na Operação, em parte porque já contava com seu próprio aparato: o Plano de Busca Externa, implementado desde 1966 pelo serviço secreto do Itamaraty, que, através de funcionários – diplomatas e adidos militares – nas embaixadas, monitorava as atividades dos exilados, dos guerrilheiros brasileiros abrigados nos países vizinhos e até dos jornalistas estrangeiros que denunciavam a Ditadura na imprensa internacional. O envolvimento dos EUA foi menor ainda. Dentre todos os 20 mil documentos secretos desclassificados pelo Departamento de Estado americano em 2001, além dos arquivos descobertos no Paraguai em 1991 e as 200 entrevistas feitas pelo historiador John Dinges, absolutamente nada comprova que a Casa Branca tenha participado diretamente da Operação Condor e tampouco a comandado ou financiado, embora dela tivesse pleno conhecimento e nada fizesse para impedir sua execução – decerto porque implicitamente aprovava a iniciativa, que convinha à sua estratégia global na Guerra Fria.
Todavia, independentemente desses pormenores, convém indagar porque as esquerdas rotulam a Operação Condor de “crime contra a humanidade”, mas esquecem que montaram sua própria Operação Condor em 1966 ao fundar a OLAS (Organização Latino-Americana de Solidariedade), concebida por Che Guevara para “coordenar a ação de todas as organizações revolucionárias do continente”. Sediada em Cuba e contando com verbas de Fidel Castro, a OLAS congregava 53 partidos comunistas e grupos guerrilheiros latino-americanos, cujos delegados em Havana aprovaram Resolução que em seu item 10 prescrevia: “A guerrilha constitui o método mais eficaz para iniciar e desenvolver a luta de classes”. Em entrevista ao jornal Front, Carlos Mariguella admitiu que a célula terrorista da qual era líder, a ALN, fazia parte da OLAS e colaborava com “outros movimentos, sobretudo os que nos países vizinhos lutam com a mesma perspectiva que nós”. Indagado sobre seus métodos, ele respondeu: “Uma enormidade de coisas: seqüestrar, dinamitar, abater os policiais”. O objetivo, acrescentou em seu livro Manual do Guerrilheiro Urbano, era “tornar a vida insuportável para as pessoas comuns, criando uma situação pré-revolucionária”. Não só a ALN, mas também outras quadrilhas socialistas brasileiras – como a VPR, MOLIPO, PCdoB, PCBR, FALN, etc – fizeram o mesmo, matando 122 pessoas. Os Montoneros dizimaram 731 cidadãos na Argentina, o MIR fez 187 vítimas no Chile e por aí vai.
Não se diga que a luta armada foi reação inevitável aos regimes militares, pois em muitos países – Uruguai, Brasil e Argentina, p/ex. – ela começou durante governos democraticamente eleitos, contando com treinamento e dinheiro de Cuba desde 1961, conforme demonstrou a historiadora Denise Rollemberg. Aliás, isso não surpreende, pois essa gente desprezava a liberdade e buscava assumidamente implantar o comunismo totalitário na região. A esquerda cucaracha foi ainda mais longe ao fundar a Junta de Coordenação Revolucionária (JCR) em 1972, no Chile, reunindo guerrilheiros do MIR, dos Tupamaros, do ERP (argentino) e do ELN (boliviano). Em sua declaração constitutiva, a JCR proclamava que “não há saída política fora da luta armada”. Dessa convicção resultou a montagem de uma clandestina “Escola de Quadros” – destinada ao treinamento na montagem de bombas, propaganda e técnicas terroristas – em Santiago, transferida para Buenos Aires após a ascensão de Pinochet, em 1973. A JCR mudou sua sede para Paris em 1974, tendo como secretário-geral Fernando Luis Alvarez, membro da Direção Geral de Inteligência de Cuba. A essa altura, ela já lastreava o intercâmbio entre “organizaciones hermanas” do Peru, Venezuela, Brasil, Paraguai, Colômbia, Nicarágua, Guatemala e El Salvador.
Diante do exposto, surge uma conclusão incontornável: a Operação Condor foi a resposta internacional à agressão igualmente internacional do comunismo contra a América Latina, cujos métodos eram tão implacáveis quanto os governos locais. As guerras civis dos anos 60 e 70 foram guerras e, nas guerras, os direitos humanos são atropelados por todos os combatentes, tanto os gorilas militares como os terroristas de esquerda, que não eram vítimas inocentes, como hoje se quer fazer crer.
Como bem observou o Prof. Carlos Azambuja, no fim das contas, a polêmica em torno da Operação Condor não é uma questão de “direitos humanos”, mas uma disputa pelo poder sobre a História. Aquele que controla a interpretação do passado controla o presente – e também, pode-se acrescentar, leva vantagem na definição dos termos do futuro.
Uma última palavra sobre a ordem de prisão expedida pela Itália: o Brasil deu “asilo político” ao terrorista italiano Achille Lollo, que em 1973 matou duas crianças ao incendiar o apartamento de seu rival Mario Mattei, em Roma. Lollo vive hoje tranqüilamente como consultor do PSOL. Por que não deportamos esse “hóspede ilustre” para que responda por seus crimes contra a humanidade?
Eduardo Lucas de Vasconcelos Cruz é bacharel em Relações Internacionais e mestrando em História pela Unesp, bacharel em Direito pela FDF e Editor-assistente do Comércio.
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