Em julho de 2003, a revista britânica Journal of Humanistic Psychology publicou o relatório de um grupo de psicólogos que se dedicou a analisar as palavras de 200 personalidades a respeito do sentido da vida. “É preciso desfrutar a vida enquanto for possível” foi o que se extraiu do pensamento de 17% dos analisados, dentre os quais Thomas Jefferson. Já para 11% dos estudados, incluindo Frank Kafka e Jean-Paul Sartre, a vida não tem sentido. Outros, como Jean-Jacques Rousseau, Albert Einstein e Mahatma Gandhi, achavam que o sentido da vida é ‘amar, ajudar e prestar serviços aos demais’. Para um grupo menor, no qual se incluem Napoleão e Stephen Hawking, a vida é um mistério. Por fim, num grupo ainda menor, onde estão Bob Dylan e Oscar Wilde, a vida não passa de uma piada.
Há quem pergunte: como há sentido na vida, se tem criança que morre pouco depois de nascida? Se alguns possuem muito além do que precisam, enquanto outros não têm nem comida? Para mim, a vida é um mistério, mas tem sentido, tem rumo, embora tudo pareça tão, digamos, indefinido. Segundo o grande Carlos Drummond de Andrade, “o sentido da vida é buscar qualquer sentido”. Penso que o sentido de tudo está no próprio ser, no existir, e isso se percebe sobretudo com a ausência, a inexistência. O real significado das coisas, só o percebemos quando elas faltam e quebram nosso ritmo, alteram a nossa rotina. Temos a idéia exata da saúde quando estamos doentes. A razão de ser da amizade se delineia quando a saudade bate forte. E os pais? Só depois que os perdi é que percebi como eram preciosos.
Mais importante do que querer encontrar o sentido da vida é dar sentido a ela. E isso, no fundo, todos fazemos. Quem batalha dá sentido à vida. Idem, quem pega no batente, quem se dispõe a fazer alguma coisa e dá o máximo de si para fazer bem, quem tenta erguer-se depois dos tropeços, quem chora a perda do ente querido. Dá sentido à vida quem, depois de se sentir liqüidado, vai em busca de força, reergue-se, tenta reencontrar a essência, suprir a carência. Da mesma forma, quem luta para vencer a doença, manter a crença, ter disciplina na convalescença.
Alimentar-se quando se tem fome, cuidar da saúde, etc, é dar sentido à vida. Há pessoas admiráveis que abdicam do próprio lazer para prestar trabalhos voluntários, levar ajuda aos necessitados, lutar pela preservação do meio ambiente. Quem aproveita todos os momentos, transmite bons fluidos, recompõe-se juntando fragmentos, dá substrato à vida.
Refletir sobre a vida é uma forma de aprender e melhorar. Todavia, penso que se deve ter em mente os efeitos práticos dos nossos pensamentos e ações. Perder-se além da conta em abstrações, prender-se muito a divagações, não leva a nada. As preocupações metafísicas não podem ir além do necessário à solução dos nossos problemas reais. Sei que ir fundo na questão da existência não vai me livrar da luta pela sobrevivência. Vou ter de continuar segurando as pontas e seguir trabalhando em busca do dinheiro para pagar as contas. Para estreitar laços de amizade, dar muitos abraços para matar a saudade, deliciar-se com um bom verso, ir em busca da felicidade, não é necessário decifrar o enigma do universo. Por mais que nos pareça confuso e ponha a cabeça em parafuso, o sentido/propósito/enigma da vida (de onde viemos, para onde vamos?), nos virá certamente em um estágio mais avançado da nossa existência, ao qual, confesso, não tenho pressa nenhuma de chegar.
PAULO PEREIRA DA COSTA é promotor de Justiça e autor do livro Pensando na Vida - E-mail: paulopereiracosta@uol.com.br
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