É uma lástima que muitos candidatos a cargos políticos, quando eleitos, esquecem-se de representar o povo de cujos votos tanto dependeram e agem em função dos interesses de empresários ou grupos políticos poderosos. E não são poucos. O que adianta que defendam tanto o crescimento econômico do País se a renda não for bem distribuída, ou a vigência de altos impostos cujo dinheiro arrecadado não temos a certeza de que é bem aplicado.
Defendo uma ampliação dos canais de comunicação entre os candidatos e a população, antes das eleições e depois delas, para que conheçamos melhor suas propostas e possamos continuar tendo voz na vigência da democracia. A nossa, embora representativa, uma vez que o poder emana do povo através de representantes eleitos, carece de maior acompanhamento no decorrer das administrações para evitar o descompasso entre o que se prometeu e o que se defende nas tribunas.
Vão e vêm as eleições, para os níveis municipal, estadual e federal, enquanto as massas continuam sem saber como opinar à respeito dos problemas de sua cidade, estado ou país. Surgem ecos de suas idéias e sugestões nas reuniões familiares, conversas entre vizinhos, festas e outros eventos, mas as autoridades estão quase sempre propensas a decidir unicamente a partir do que discutem lá em cima entre eles.
A democracia não pode caminhar sem que o povo, com sua sabedoria, continue opinando aos representantes sobre os problemas de sua comunidade e sugerindo mudanças que tragam o bem-estar da maioria. O filósofo italiano Umberto Cerroni, ao falar da ‘missão do sábio’, aponta que o grande problema cultural da sociedade de massas atual é reconstruir um canal institucional para a produção individual livre e vincular os órgãos públicos à cultura autêntica.
Interessa-nos, por exemplo, a eficiência e a presteza no atendimento em órgãos de defesa do consumidor, a provisão de números gratuitos de telefone para reclamações ou pedidos em secretarias municipais e estaduais, o aumento da fiscalização sobre as agências reguladoras (como as de transporte terrestre e telefonia) para que não sejam baluartes do setor privado, e a ampliação dos mecanismos de consulta popular por funcionários públicos.
O amigo do povo não pode ser confundido com inimigo da classe política, sob risco de dissociação em vez de fiel correspondência. A amnésia na democracia associa-se à falta de canais, ou desconhecimento dos mesmos, entre a população e os representantes durante as gestões que nos dificulta cobrar mudanças na repartição de recursos e na definição de quais setores são prioritários. Muitos canais existem, mas o povo não sabe como usá-los.
A sociedade transforma-se cada vez mais rapidamente e o povo demanda ações para melhorar sua qualidade de vida e certificar o avanço da democracia no Brasil.
BRUNO PERON LOUREIRO é bacharel em Relações Internacionais pela UNESP (Universidade Estadual Paulista).
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