Dar uma casa para a mãe, ganhar uma bicicleta grande, ter uma boneca que anda, um videogame ou contar com alimentos todos os dias para dar aos filhos. Os sonhos são da catadora de recicláveis Mirian de Assis dos Santos, 35, e dos seus oito filhos que têm entre 16 e 2 anos. Ela é mãe de dez, mas mora com oito. Os outros ficaram na Bahia com o ex-marido.
Mirian e o atual companheiro José Cardoso, 45, motorista, vivem em Franca há seis anos. A vinda para a cidade também começou com um sonho, que ainda não foi realizado. A família morava em Santos, mas não estava satisfeita e decidiu deixar o litoral para tentar a vida aqui, onde o irmão de José morava. Primeiro veio o chefe da família. Ele, que estudou até a 5ª série, chegou e conseguiu emprego num ferro-velho. Seis meses depois, Mirian, com seis filhos à época, tomou estrada ao lado das crianças e se mudou também. Aqui teve mais dois filhos e viu o sonho “de uma vida melhor” ser desfeito. A numerosa família passa necessidades.
José está desempregado há anos, pois tem hérnia de disco e úlcera e disse que não consegue serviço. Mirian tem pressão alta e um problema no coração e parou de catar recicláveis na rua porque, com o sol quente, sua saúde piora. Até semanas atrás, os pais mal tinham condições de comprar alimentos para os filhos. A situação está diferente agora, pois ganharam quatro cestas básicas no Natal. Mirian não sabe até quando os alimentos durarão, mas está aliviada por ainda ter em seu armário feijão, macarrão e óleo para os filhos. “Não sei até quando teremos refeições. Não fiz as contas. Um pacote de arroz de cinco quilos dura dois dias aqui em casa”, disse a mãe.
A alimentação é feita basicamente com arroz, macarrão e salada. O casal não compra carne por não ter condições nem um lugar para armazenar, pois não possui geladeira. “Quando compro mistura temos que consumir tudo no mesmo dia. Leite só posso comprar de caixinha para não estragar”, disse a mulher.
Os pais sustentam a casa com os R$ 120 recebidos do programa Bolsa-Família e R$ 380 do benefício do filho mais velho, de 16 anos, que é deficiente mental e aluno do CEI (Centro de Educação Integrada).
Até o dia 26 de novembro, Mirian, José e os oito filhos moravam numa casa alugada por R$ 70. O local, de três cômodos, tinha goteiras, não possuía chuveiro e estava com água e energia cortadas. Depois, eles se mudaram, mas o novo endereço não é diferente do anterior. O imóvel fica no Jardim Aeroporto III, é velho e apertado. Há dois quartos para os dez moradores dividirem, sala e cozinha. O telhado também está com goteiras, a água só foi religada um mês depois da família se mudar para o local e a energia, fornecida nesta semana. A locação custa R$ 130. “As portas não fecham. Não tenho segurança. Deixo o cachorro na porta para servir de guarda. Mas sempre falo: melhor aqui que no meio da rua com minhas crianças”, disse Mirian.
Os fios para a residência ter luz foram comprados por voluntários, que se uniram para pagar os materiais elétricos.
Antes do fornecimento da Sabesp ser religado, os moradores buscavam água em tambores numa cachoeira do bairro.
Enquanto vivem num espaço totalmente precário, Bruno Cardoso, de 10 anos, tem um sonho que poderia transformar a vida da família inteira. O garoto sonha dar uma casa própria para a mãe. Ele quer ser jogador de futebol. “Vou ganhar dinheiro e comprar um lugar para minha mãe morar”, disse.
Mirian fez inscrição na Prohab (Núcleo de Habitação Popular Franca) de Franca e já participou de dois sorteios de casas populares, mas ainda não foi contemplada. “Disseram que teria mais chance por ter um filho deficiente, mas ainda não chegou minha vez. Só que tenho esperança. Esperança é a última que morre”, disse, com lágrimas nos olhos. O maior desejo dela é ter um imóvel para viver com o marido e as crianças. “Não precisa ser uma casa grande, não”. A família não pretende deixar Franca.
OPORTUNIDADE E ESPERANÇA
A dentista Lusiane Thimóteo pode ser considerada uma testemunha ocular da família de Mirian, a qual acompanha há um ano. Ela disse que as necessidades vão muito além de ter a casa e precisar de alimentos. “A família não tem geladeira. Só duas bocas do fogão funcionam. A TV da casa dela é enfeite, não funciona. Eles precisam de um beliche. As crianças têm camas, mas estão desmontadas por falta de espaço. Eu acompanho a família e estou sempre lá, sei que estão necessitados”, disse. Lusiane e outros conhecidos auxiliam os moradores com alimentos, roupas, móveis e pagamento de contas.
Roberto Nunes Rocha, secretário de Desenvolvimento e Ação Social, informou que a família pode ser assistida em outro aspecto, além do Programa Bolsa-Família. “O Bolsa-Família é voltado para atender às necessidades básicas, que é alimentação. Mas os pais, se quiserem, podem fazer cursos de geração de renda, aprender nova atividade para não ficar dependente para sempre do programa”, disse o secretário. Eles devem procurar o Cras (Centro de Referência e Assistência Social) para se informar sobre os cursos, que são gratuitos.
A boa notícia para os familiares partiu da Prohab (Divisão Pró-habitação de Franca). Informado na última quarta-feira sobre o caso, Vanderlei Tristão, superintendente da unidade, encaminhou uma assistente social ao endereço de Mirian para saber de suas necessidades. “Realmente, a situação lá está caótica. Algumas pessoas desistiram do mutirão de casas no Jardim Santa Bárbara e teremos vaga para incluir a dona Mirian”.
A catadora de recicláveis e os parentes deverão ajudar a erguer a residência a partir de agosto deste ano e poderão estar no novo imóvel em fevereiro de 2009. O terreno será doado pela Prefeitura e o financiamento dos materiais de construção feitos pela CDHU (Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano).
Hoje a família mora na Rua Ivete Vitoriano de Paula Garcia, 2292, no Jardim Aeroporto III.
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