Caminhantes


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Era bem cedo, dava para sentir o frescor da manhã que tornava a habitual caminhada ainda mais prazerosa. A cidade ainda dormia, ruas quase desertas, o sossego desejável, sem precisar conviver com aqueles desagradáveis condutores alucinados sobre suas ‘máquinas mortíferas’ cruzando nossas ruas. A passos largos, mergulhado em pensamentos desordenados, fui surpreendido por um senhor que me perguntou em que dia estávamos, “um sábado ou um domingo?”. Prontamente respondi que era sábado, 29 de dezembro. E ele disse: “este é um lindo dia!”. Meus passos ficaram mais lentos. Encabulado, tive que perguntar: “o que faz este dia tão especial a você?”. O olhar do homem mirou o horizonte como se buscasse inspiração, respondendo: ‘é mais um dia de vida que está surgindo, talvez daí de onde você está não dê para enxergar direito...’. Atravessei a via, envolto em curiosidade e fitei os céus... Era idêntico ao que eu observara do outro lado da avenida. Intrigado com a ‘visão’ diferenciada de meu interlocutor, fiz outra pergunta: “Como sabe que do lado de lá não se tem a mesma visão?”. A resposta veio em boa entonação: ‘Depende do caminho que você está percorrendo, no que está pensando e desejando, e da sua disposição em fazer coisas boas ou ruins. Tudo isso implica no que poderá ver, ou não ver’. A minha encafifação só crescia... Continuou o homem: ‘A vida é simples e merece ser vivida na sua simplicidade. Despoje-se dos entulhos da vaidade e do orgulho, caminhe de coração limpo e não rumine comida podre (pensamentos parvos) durante a caminhada. Isso fará com que tenha uma outra visão daquilo que está à sua volta. Esvazie sua mente e olhe novamente os céus!’. Obedeci e os resultados mudaram! Pude enxergar o lindo azul-anil cobrindo nossa cidade com seu infinito sem limites, ter a sensação de que aquele dia havia sido preparado para mim como um presente vindo do alto. Senti que crescia como gente naquele instante, aprendi a atentar matreiramente para o que imaginamos tão trivial e por isso não valorizamos. Ao meu lado, maltrapilho, de corpo franzino e barba por fazer, carregando uma mochila de nylon surrada, cobertor enrolado sobre as costas e um lanche doado por alguém numa daquelas sacolinhas de mercado, apresento aos leitores o homem sábio que tive a oportunidade de conhecer naquele dia. Seu nome é Gilberto, tem 66 anos e nasceu no sul do Brasil. É um ex-contador de empresas que decidiu ser livre e escolheu, para praticar a liberdade durante o que considera “uma breve vida”, ser caminhante, cidadão do mundo, sem eira nem beira, migrante-itinerante, que diz estar num processo de conhecimento muito avançado. Considera-se abençoado e realizado em todos os aspectos da sua existência. Deveres cumpridos para com a sociedade e família – filhos formados, casados e estabilizados. E uma amada-esposa que o aguarda num outro plano. Interessante como a ‘casualidade’ nos reserva surpresas agradáveis. Traz coisas novas, que ajudam a evoluir na forma de belas histórias. Às vezes a gente precisa mudar de caminho para ir de encontro ao novo, afastando preconceitos, aprendendo a jamais subestimar nem julgar o outro que caminha do lado oposto da via. Afinal, somos todos “caminhantes”, uns mais sábios, outros mais ignorantes. RICARDO VERÍSSIMO JÚNIOR é funcionário público e integrante do Conselho de Leitores do Comércio da Franca

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