Ao invés de um suntuoso rancho às margens da represa de Rifaina, o local escolhido para a ceia este ano é um velho galpão de fábrica em Franca mesmo. A mesa, antes de pau-brasil colonial puro, é menor e talhada em carvalho misto, resultado da contenção de despesas. Mas tudo está bem - ao menos por enquanto.
As pessoas comparecem em menor quantidade do que nas festivas reuniões dos anos 70 e 80. Natural, dirão os especialistas. O peru é servido em conjunto de jantar nacional, quase estóico, uma clara oposição à época do serviço em porcelana chinesa com talheres de ouro e prata americanos. Mas a madeira, assim como os convidados, ainda é firme. Agüenta o tranco.
Com talheres (de inox brasileiro) nas mãos, sobrenomes famosos da indústria calçadista esperam, quase serenos, o prato que, sonham, será menos indigesto que o do último ano. Em 2007, tiveram dor de cabeça, mas não se escusaram da comemoração. Brigagãos, Sábios de Mello, Betarellos, Coelhos, Spaniois, Puccis, Cintras, Donadellis, Machados e Raimundos, Poppis, Freitas e Abdallas, dentre outros, aguardam, em uma conversa entre solene e prática. Dentre todos os tradicionais, dois convivas, com desenvoltura: Britto, das plagas do sul, recém-chegado à terra das três colinas, e Pracuch, o que todos adoram odiar mas, no fundo, res-peitam.
Com pouquíssimas exceções, a mesa do último ano se manteve. É um bom sinal. Durante todo o ano, comentários pipocavam na cidade dando conta de que os anfitriões não conseguiriam realizar a festa. Pois conseguiram. Sem luxo e sem pompa, mas conseguiram. Não há problema. Embora carrancudos, todos estão felizes por dentro por, mais uma vez, poderem usufruir da companhia mútua e começar um novo ano.
Reclamam, evidente, como cabe a todo bom francano. Os pessimistas, negativistas e adeptos da crise - para usar as palavras do alcaíde Sidnei Rocha, tucano de nova safra, não poderiam deixar de dar o ar da graça. Ainda assim, as queixas são mais por obrigação e rotina do que por desagrado. Todas sabem que a vitória foi grande, ainda que suada, em 2007.
Não foi um ano para se comemorar, é verdade. Mas também não foi um período dos piores. Em um mercado que é cíclico e vive de crises, o Papai Noel de cada um deles computou mais dificuldades do que lucro. Ainda assim, com redi-mensionamentos, ajustes e cortes, as coisas foram acontecendo melhor do que os urubus de plantão previam. Ufa! Abençoado seja o Papai Noel.
A ceia prossegue na mesma balada. Entre um prato e outro, o futuro vai sendo discutido. Há planejamento, inclusive, para a festividade do próximo ano. Um bom sinal já que, no fim das contas, indicam que todos esperam estar ali no futuro.
Badala o relógio. Meia-noite. Hora de começar um novo ano. Feliz Ano-Novo, dizem todos, mais uma prece do que um desejo. E assim começa, para a indústria calçadista, o ano de 2008.
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.