Durante o ano, o reitor da Unifran, Clóvis Ludovice, foi figura constante nos noticiários. A assiduidade com que freqüentou as páginas dos jornais aumentou ainda mais no segundo semestre, quando começaram a surgir nos bastidores da Unifran e nas rodas de fofoca por toda a cidade, a notícia de que a instituição está prestes a ser vendida.
Para algumas pessoas com quem o jornal manteve contatos nas últimas semanas, a venda da Unifran é praticamente certa. É uma questão de tempo. Entre os funcionários, a expressão de preocupação é nítida. Nada mais natural que se preocupar com os empregos e tentar prever - quem será e quais as pretensões de quem arrematar a universidade?
O reitor Ludovice nega veementemente qualquer negociação, mas, como em outras vezes, não escondeu que está sendo assediado. “A minha parte não venderia jamais; está registrado em cartório”, disse. Já quanto a do sócio, Abib Cury, há algumas reticências. Em sua sala, Ludovice concedeu a última entrevista do ano para o Comércio, em que falou de aspectos da vida pessoal, como sua paixão por Portugal, rumos que imagina para a Unifran, como a instituição seria beneficiada por um curso de medicina e os novos investimentos para 2008.
Comércio da Franca - O que a Unifran representa para o senhor?
Clóvis Ludovice - É interessante quando a gente pergunta sobre a realização de uma obra para a pessoa que participou dela. Mas é preciso voltar 37 anos no tempo para ver quais eram os objetivos que essa pessoa tinha naquela época. Tudo o que foi feito nesse tempo por mim e pelo Abib (Abib Cury, sócio) no que diz respeito à concretização de uma entidade educacional, foi feito com muito esmero e vocação.
Comércio - A instituição evoluiu numa escala imaginada pelos senhores?
Ludovice - Não. Evoluiu de uma forma que não esperávamos. Foi se transformando, quase que sozinha, como um ente humano que se desenvolve por si. Nesse período todo, sempre fomos educadores com honestidade
Comércio - Em vez de perguntar o que a Unifran oferece de bom, eu inverteria a pergunta - o que a Unifran nunca praticaria?
Ludovice - Nós sempre nos pautamos pela responsabilidade, por exemplo, de nossos registros. Em todo esse tempo, 37 anos, em que formamos 30 mil alunos, nunca tivemos nenhum processo para verificação da autenticidade de nossos diplomas. Fora isso, o que oferecemos através dos nossos serviços à comunidade, atesta nosso compromisso de seriedade.
Comércio - A administração da Unifran foge ao seu controle hoje ou o senhor tem domínio sobre como ela se desenvolve?
Ludovice - Não, não tenho. Ao profissionalizar toda a empresa, nós colocamos diretores em áreas essenciais, tirando de nossas mãos poderes e resoluções. É uma empresa com muitos caciques, e competentes. Muitas coisas eu nem fico sabendo. A profissionalização foi feita para dar continuidade administrativa.
Comércio - Quais são as suas paixões?
Ludovice - Ah, eu tenho muitas... Fiz muitas coisas na cidade, coisas que as pessoas nem ficam sabendo. Sou numismata, gosto de carro antigo (tem um Lincoln 46, o único do Brasil, mas chegou a ter 10). Mas o que eu gosto mesmo é de viajar. Além da Unifran, sou presidente do conselho fiscal da Associação das Universidades de Língua Portuguesa, com sede em Lisboa. Por causa disso, já estive em Macau, Timor Leste, recentemente, com todos os países africanos de Língua Portuguesa. Sou um estudioso da história de Portugal, país que me toca muito. Vou garimpando lugares escondidos, atrás de passagens históricas.
Comércio - Passados quase dez anos desde sua grande expansão, quais são os planos futuros da instituição?
Ludovice - Serão nossos oito núcleos com cursos à distância, que fortalecerão a nossa expansão. Teremos unidades em Passos, Varginha, Mogi-Guaçu, São Carlos, São José do Rio Preto, Ribeirão Preto, Mongaguá e São Paulo. Com isso, estamos esperando um número de 30 mil alunos nessas unidades, somados aos 12 mil daqui. Manteremos nossos serviços de apoio à comunidade, como as clínicas, que atenderam mais de 23 mil pessoas em 2007, aulas de informática para a população carente, entre inúmeras outras ações.
Comércio - Nos últimos meses, foram muitas as notícias de que a Unifran mudaria de dono. O senhor reafirma que a universidade não está à venda?
Ludovice - Todo esse quadro que eu te mostrei está atraindo interessados. Mas está enchendo o saco (sic), porque as propostas são absurdas. O Chaim (empresário Chaim Zaher, dono do COC Ribeirão) veio aqui e me ofereceu R$ 120 milhões, e eu dei risada.
Comércio - Essas propostas absurdas são para cima ou para baixo?
Ludovice - Nem para cima eu vendo. A minha holding, chamada Participações Ludovice, não está à venda, está fora de conversa.
Comércio - Conversas nas calçadas indicam que as famílias Ludovice e Cury não mantêm laços de proximidade, que Abib não tem simpatia por Franca e que a família dele não tem interesse na cidade. O senhor pode não vender, mas o Abib sim?
Ludovice - Eu acho que ele também não. Há 15 dias, fizemos uma reunião do conselho e ficou sacramentado que nenhuma das duas holdings será vendida. A Unifran está em seu melhor momento. O Abib é muito rígido, durão e reservado. A personalidade dele é muito diferente da minha. Mas eles gostam de Franca, sim.
Comércio - Quanto vale a Unifran hoje?
Ludovice - Não dá para avaliar sem estudar profundamente. Uns pagam R$ 8, R$ 10 por aluno.
Comércio - Além do proprietário do COC, Chaim Zaher, quem mais veio atrás do senhor com proposta de compra?
Ludovice - Cróton, de Belo Horizonte, COC, como você disse, Anhangüera, de Louveira, Estácio de Sá e a americana Laurenti. Veja - há várias maneiras de se negociar. Pode vender a estrutura, mas não a marca. Assim, posso vender o prédio, mas construo outra Unifran em qualquer lugar. Porque a marca Unifran é forte.
Comércio - Para finalizarmos, por que se persegue tanto o curso de medicina? É uma galinha de ovos de ouro?
Ludovice - Não é, porque não é um curso rentável. Por outro lado, é o vagão chefe de qualquer universidade. Uma instituição que consegue uma faculdade de medicina, tem seu conceito superavaliado pela comunidade. É uma mudança de rumo junto com a projeção que seria alcançada. Estamos paulatinamente cumprindo todas as exigências do Ministério da Educação e do Conselho Regional de Medicina, nossas salas estão prontas, com todos os equipamentos comprados e instalados. Apenas esperando a autorização para funcionamento.
Comércio - O que explica o fato de o curso de direito ser freqüentemente reprovado nas avaliações do Governo Federal? Falta qualidade?
Ludovice - Há avaliações que levam em conta a estrutura, o corpo docente e a performance dos alunos. Nos dois primeiros casos, nós temos sempre notas máximas. No entanto, quando chega a vez do aluno, o resultado não é bom, porque eles tiram a nota mínima. O curso de direito está sendo reestruturado. Teremos novo diretor já para o início do ano. O curso caiu de qualidade por causa da falta de administração, mas estamos substituindo vários professores e promovendo uma reavaliação pedagógica.
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