Longe dos pais, crianças sonham com um lar


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No quintal da Casa do Aconchego, as crianças caminham de mãos dadas com uma boneca. Os brinquedos divertem, mas ter pai e mãe é o que faz a diferença
No quintal da Casa do Aconchego, as crianças caminham de mãos dadas com uma boneca. Os brinquedos divertem, mas ter pai e mãe é o que faz a diferença
Elas moram em uma casa cheia de amigos com quartos e salas grandes. Nas paredes, desenhos e colagens feitas em papéis coloridos e, no quintal, parque de diversão, casinha de boneca e até piscina. Isso sem contar a televisão, os cadernos, roupas e brinquedos. Tudo o que faria qualquer criança feliz. No entanto, para os 24 internos da Casa do Aconchego, instituição mantida pela Prefeitura, ainda falta uma coisa, talvez a mais importante: uma família. Com idade entre um e 13 anos, essas crianças foram vítimas da negligência, abusos sexuais, maus tratos ou abandono e, por essa razão, afastadas dos pais. Muitas sofrem com a situação, mas nem sempre pensam em voltar para suas antigas casas. Mesmo assim, uma coisa é certa: todas sonham em ter uma nova família, um lar com direito a pai, mãe e irmãos. A reportagem do Comércio visitou a instituição no dia 19 de dezembro, um dia antes delas saírem de “férias” para as casas das Famílias Eventuais (leia mais no texto ao lado). A visita durou cerca de duas horas, tempo suficiente para conhecer como vivem esses pequenos e descobrir os sonhos de parte deles. Com uma vida simples e sem muitos recursos, a felicidade dessa criançada não depende de uma lista extensa de brinquedos. Diante da situação, os desejos são óbvios. “Queria ter uma família. Uma mãe, um pai e irmãos, todos reunidos. Morar em uma casa bem grande”, disse Bruna*, 13. A menina está na entidade há um ano e não tem boas recordações do que viveu junto com sua família de origem. “Nem sempre tinha comida, não tinha televisão. Eu só ficava trancada dentro de casa”. Agora, depois de 12 anos de um convívio problemático, as lembranças fizeram que a jovem, ainda imatura, tomasse uma decisão de “gente grande”. “Não quero voltar para a minha casa”. Ela não é a única. Os passeios fora dos portões da casa fazem com que as crianças conheçam outras maneiras de se viver em família e, assim, sonhem com um futuro diferente do que viveram. Marcelo*, 7, não fica triste ao falar do pai, mas seus olhos brilham quando se refere a uma das voluntárias do Programa Família Acolhedora (programa que permite que outras famílias ou pessoas cadastradas voluntariamente acolham crianças e adolescentes abrigados na Casa do Aconchego). “Já fui para a casa dela mais de uma vez. Pedi para ela (a suposta mãe) me adotar, mas ainda não deu certo. Quero ir adotado hoje e ficar lá para sempre”, falou à reportagem. Mas conquistar um novo lar não é um processo simples. Por determinação da Justiça, muitas crianças retornam às suas famílias de origem ou permanecem em média um ano à espera de um adotante. “Atualmente, a que está aqui há mais tempo tem três anos de acolhimento”, disse a assistente social do abrigo, Eliete Neves. De acordo com Eliete, nem todas podem ser adotadas. “Que tenha conhecimento, apenas duas estão aptas para a adoção. O restante aguarda decisão judicial”, explica. Enquanto esperam, as crianças podem ser acolhidas por familias ou pessoas cadastradas no Programa Familia Acolhedora. Este tem cerca de 50 inscritos e é divido em dois projetos, as famílias de apoio, que fica com as crianças por prazo suficiente à regularização de sua situação, e as eventuais, que as levam para casa durante um período determinado como férias, finais de semana e feriados prolongados. Quando estão na unidade elas têm uma vida relativamente normal. Vão à escola, participam de atividades esportivas como natação e basquete e ainda têm acesso a consultas médicas e psicológicas periodicamente. UMA GRANDE FAMÍLIA Na Casa do Aconchego, os internos não estão completamente sozinhos. Alguns recebem visitas dos verdadeiros pais a cada 15 dias e, pelo menos, 19 das 24 crianças moram com os irmãos. E, além dos laços consangüíneos, eles se consideram mais que amigos. “São todos meus irmãos, também ‘ué’. Moram comigo”, disse Marcelo*, que mora com seu irmão Marco*. Mas a união da casa não pára por aí. Na tentativa de suprir o vazio de estar distante de pai e mãe, os quase 30 funcionários da instituição assumem o compromisso de educar e zelar pelas crianças. “Cada um tem o seu jeitinho e aprendemos a gostar de todos. Sabemos do que gostam e tratamos como se fossem filhos mesmo. Alguns até nos chamam de mãe”, disse Sandra Costa, 40, cozinheira da Casa há dois anos. * Para preservar a identidade e privacidade das crianças, os nomes são fictícios Colaborou: Renata Modesto

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