Dados oficiais ‘reduzem’ mortes na pista em 175%


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No pequeno trecho da Rodovia Cândido Portinari, entre a frente do Franca Shopping e Pedregulho (SP), 22 pessoas encontraram a morte em 2007, segundo levantamento feito pelo repórter de polícia do Comércio, Edson Arantes. Há uma diferença de 175% entre a estatística oficial e a real. Pedi e recebi em poucas horas, após conversa com o sempre solícito tenente Cláudio Ferreira da Silva, comandante da Polícia Rodoviária de Franca, levantamento sobre números de acidentes ocorridos no mesmo trecho da pesquisa feita por Edson e me surpreendi: nela consta o registro de “apenas” oito vítimas fatais. Lancei-me à matemática simples: 8 é 175% por cento menor que 22. Sai em busca de luz. Qual a razão para o distanciamento de tipo terra-sol entre números tão sérios? Fácil. Nas ocorrências registradas pela Polícia Rodoviária, não entram nas estatísticas “vítimas fatais” aquelas que não tenham morte constatada no local dos fatos. Se a vítima recebe socorro e ainda sopra a vida, a ocorrência da Polícia Rodoviária será registrada na coluna “sem vítima fatal”. O trabalho do jornalismo é mais amplo. Ele segue o que acontece às vítimas horas, dias e até meses após o acidente. Está explicado: não apenas oito pessoas morrerram em conseqüência de acidentes na rodovia e sim, 24. Terminaria aí o assunto da coluna de hoje. Mas não quero fazê-lo. É preciso caminhar um pouco mais para entender por que o trecho que descrevi ao início deste texto mata tanta gente. O tenente Cláudio me disse que a imprudência é o fator principal. Portanto, não é a estrada. Respeito o que ele disse. Está há muitos anos neste trabalho e sabe melhor que ninguém, que motorista bom é motorista “limpo”, não se enquadrando aí, nem de longe, aqueles que abusam, “mesmo que só um pouquinho” da alegria dos comes-e-bebes. O engenheiro Alberto Nakage, chefe do setor de conservação de rodovias do Departamento Nacional de Estradas de Rodagem, regional de Ribeirão Preto, responsável pela estrada em foco, me disse que o departamento de Franca cuida adequadamente do trecho. Um dos funcionários do escritório daqui me contou que cuida de “200 quilômetros de estradas entre o trecho final da Portinari, a Ronan Rocha e a Fábio Talarico”. E que é “Leão & Leão que dá manutenção. A gente indica e a empresa vai lá e conserta”. E que “um dos pontos que mais exigem reparos é o do entorno de Cristais Paulista. Ali, só a reconstrução do trecho resolveria de vez o problema”. Então, o serviço é lento e não é preventivo, como eu imaginava. Vou muito a Cristais Paulista (SP) e faço isso há muitos anos. Há menos de três comecei a perceber a deterioração do asfalto, antes um verdadeiro tapete repleto de carros de passeios e utilitários das fazendas da região. Devagar, a qualidade da massa asfáltica degringolou. Ao mesmo tempo em que passei a desviar de buracos aqui e ali, percebia que a concorrência na pista tinha também mudado de perfil: caminhões carregados de cana, ou de minérios, ou de hortifrutigranjeiros. Os policiais rodoviários de Pedregulho têm uma resposta: a rodovia é, hoje, rota de transporte para minério, batatas e cenouras de Araxá (MG). Com um caminhoneiro, soube do ponto de vista negocial: “utilizo a Portinari e sei que muitos companheiros de estrada fazem o mesmo para reduzir custos”. Diante do trânsito que a pistinha simples não está preparada para suportar, continuo convicto de que acidente é e será sempre conseqüência. Você sabe exatamente onde está o buraco do qual vai tentar se desviar para não arruinar o carro? Fará isso com toda a segurança para sua vida ou vai se meter na pista contrária, frente à frente com quem vem lá? E, pior: as regras de produção de estatísticas não privilegiam quem morre após o acidente. Então, sempre vai haver quem ache que as rodovias são seguras. Luiz Neto é jornalista, radialista e mestre cerimonialista, é editor de Opinião e gestor de Relações Corporativas do Comércio da Franca DE NOVO O DER providenciou, mais uma vez, remendos nos buracos do entorno de Cristais Paulista. Fez isso na quinta-feira, dia 27. A sinalização de solo não foi refeita por causa das chuvas. A qualidade que se espera para rodagem adequada não é, nem de longe, aquela capaz de evitar problemas mecânicos ou proporcionar segurança ao motorista. Em outros trechos da pista, até Pedregulho, há muitos pontos assim. IMPRUDÊNCIA O tenente Cláudio Ferreira da Silva, comandante da Polícia Rodoviária da região de Franca me disse que a imprudência é o fator mais relevante entre permanecer vivo ou morrer. “O que separa um veículo de outro é uma linha, a linha de sinalização de solo. Se for observada com o rigor do conhecimento, determina a vida. Se não for, a morte é contingência a ser considerada”. ESTATÍSTICAS Ainda, da planilha que me foi enviada pela Polícia Rodoviária: em 2005 (sempre até 27 de dezembro), foram registrados 48 acidentes na “pista simples” entre Franca e Cristais; 45 entre Cristais e Pedregulho e 25 entre Pedregulho e Rifaina. Em 2006 aconteceram, nos mesmos trechos, 66, 34 e 33 acidentes. Em 2007, 72, 43 e 42. Foram registradas seis vítimas fatais em 2005, seis em 2006 e oito em 2007. A Polícia Rodoviária afirma que ao crescimento da frota de veículos soma-se à imprudência e à imperícia para explicar estes tristes números. Não se pode culpar os policiais, obrigados a defender a norma, mas penso diferente. Os números reais são muito mais graves. Quando, por algum motivo mascara-se a estatística, corre-se o risco de penalizar a vida. Gritar é preciso. A vida clama!

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