Orfãos da negligência


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Santa Tereza de Jesus disse que a imaginação é como a ‘louca da casa’, aquela que é espezinhada e varrida para o quintal das coisas inúteis. No cotidiano pragmático de hoje, a imaginação parece secundária e até desprezível. O devaneio, o sonho e o amor ampliado se constituem numa loucura para o mundo. Existe uma corrente imaginária de sonhadores que sonham juntos, por isso o Amor ainda pode ser uma realidade. Essa corrente constitui a grande rede de assistência social de Franca, composta em sua essência de muitos ‘loucos e loucas da casa’ que não perdem sua intransigente crença na Vida. Profissionais da assistência social puxam a fila dos muitos atores envolvidos, psicólogos, professores, voluntários e outros, que nas creches e entidades assistenciais, nos bairros periféricos da cidade, testemunham restrições aos direitos humanos em razão da alta vulnerabilidade social a que estão entregues. Como ainda é dezembro, não podemos deixar passar que o dia 24 foi dedicado ao órfão. Muitos órfãos de pais vivos encontram-se nas creches cujas mantenedoras são entidades filantrópicas do Terceiro Setor em Franca. Os voluntários garantem direitos vendendo pizzas, fazendo rifas, enfim, vivem de bandeja nas mãos em busca de esmolas, para que nada falte às crianças que atendem: boa alimentação, segurança, aprendizagem e acolhida em período integral com custos que os recursos públicos estão longe de cobrir. É, no mínimo, intrigante constatar que a conquista de direitos passa por esse processo injusto. Mas tem sido essa a melhor forma que os dirigentes das creches têm encontrado para sua sobrevivência. São especialistas em ‘tirar leite das pedras’ para a manutenção dos serviços. E os órfãos de pais vivos ou mortos vão se multiplicando pela negligência, pela aids, pelo abandono. A epidemia da Aids tem trazido um grande impacto na vida de crianças e jovens que passam por sucessivas perdas, perdem o convívio com os pais, parentes e a própria saúde. Órfãos por aids são mais vulneráveis em razão do estigma que os acompanha. Na maioria das vezes passam por perdas irreais e são órfãos de pais vivos antes de consumar a orfandade legal. Até junho de 2005 foram notificados aproximadamente 380 mil casos de Aids (PN-DST/AIDS). Desde o início da epidemia, uma em cada duas pessoas faleceu deflagrando uma grave crise social. No período de 1998 a 2002 um inquérito domiciliar em Porto Alegre identificou que de cada 10 mortes, 8,8 eram órfãos herdeiros dos pais nessa herança. Os órfãos de pais vivos, aqueles pais que negligenciam seus filhos têm a esfera doméstica como palco das atrocidades que são diariamente cometidas contra seres indefesos. Compreende o abandono e o não oferecimento de necessidades básicas da criança, abuso físico, emocional e sexual. Considera-se que existe ocorrência de negligência física quando a criança ou adolescente for vítima de danos como resultado da agressão. A criança ou adolescente é sacudida, jogada ou queimada pelos pais, a exemplo dos bebês que aparecem nos hospitais com fraturas e queimaduras generalizadas. Por isso tudo, ‘louca da casa’ para o fundo do quintal das coisas inúteis, a exemplo de lúcidos que não mais podem sonhar! Feliz Ano Novo, esperança, sonho e compaixão! APAE, TESTEMUNHA DA ESPERANÇA No tempo do Natal do mês de dezembro em 1954, a americana Berenice Bernice, mãe de uma criança portadora de Síndrome de Down tomou conhecimento de que o Brasil não possuía esse atendimento especializado. Juntou outros pais e formou a APAE do Rio de Janeiro. O movimento apaeano no Brasil constitui o maior movimento filantrópico do mundo, com 1, 8 mil unidades atendendo aproximadamente 230 mil pessoas. Não poderia existir um mês mais bonito para florescer a esperança. ‘Louca da casa’ essa APAE que não pára de sonhar! SONHO... DE CRIANÇA! Crianças jamais perderão a capacidade de sonhar. É a garantia da infância. As crianças chegam com seus sonhos. “Quero uma casa e uma família”, um pai e uma mãe também. Disso não abrem mão. A Casa do Aconchego não é a que pretendem, mas é a melhor que as pessoas puderam pensar. Tem um pai, tio Ovídio, o guardião. Uma experiência que deu certo - diz o pessoal da Sedhas -, deu equilíbrio ao lugar que já tinha nas funcionárias, várias mães. São muitas crianças com diferentes histórias de vida. Lá, levam a orfandade que a Aids e a negligência produzem. A casa, o tio Prefeito Sidnei transformou em presente de Natal tornando-a diferente, plantada num condomínio, com canteiros de amor perfeito e uma porta chamada “Esperança”. O pai e a mãe ? Você decide! COMPAIXÃO, COM PAIXÃO! Kennedy fez célebre essa frase “Excepcional em função de suas próprias limitações, jamais em razão de nossa negligência”. O casal Elza e Lincoln levou a sério as ordens do coração. Ela é mãe voluntária do berçário onde descobriu um grande tesouro. Errou quem pensou num bebezinho gorducho de olhos azuis. Que bobagem... Helô tinha muito mais que isso, uma beleza incomparável oculta às pessoas comuns. Foi então que o casal perguntou por que não? Sua Alteza Queridíssima Heloisa, a Helô por ordem de Elza e Lincoln Bueno Alves, um exemplo de fé! Um sonho sonhado junto! Caramba, que realidade!

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