Estamos à véspera de mais um Natal.
A cidade se enfeitou com luzes, os vitrinistas mostraram o melhor de seus talentos, as figuras dos Papais Noéis se tornaram onipresentes, os centros comerciais e shoppings acolheram multidões nos últimos dias. O décimo terceiro salário trouxe consigo a possibilidade de “ir às compras”, numa euforia de escolhas, pois o número de produtos à venda é sempre superior ao que nossa capacidade de os imaginar pode conceber. Armaram-se presépios, cantaram-se músicas que evocam o nascimento do menino Jesus, enviaram-se cartões e e-mails aos parentes e amigos, foi-se em busca de presentes para as crianças e outros queridos.
Muitos lojistas ouvidos pelo Comércio, conforme noticiário da semana, apostaram nas vendas e estão satisfeitos. Não são poucos os que falam em “Natal da década”. Franca, que vive momento de transformação em sua economia, mudando seu perfil de fabricante de calçados para cidade de serviços, acabou recebendo ela própria um presente de Natal ao ser elencada pelo IBGE na lista das cem cidades mais ricas do Brasil. Enfim, o tempo é de festa e, abraçados pela magia do período, corremos o risco de nos deixar levar pelos brilhos dos pisca-piscas e bolas douradas, pelas doçuras dos panetones, pelas promessas das celofanes e fitas.
Nada de mal em consumir, o mal reside em transformar a festa religiosa em pagã.
Porque há que se continuar a crer no Natal enquanto reprodução de gestos de solidariedade, esperança, acolhimento, amparo e renascimento. Esta última talvez seja a palavra mais empregada durante o Natal e a menos colocada em prática. Um poeta já disse que Natal deveria ser sempre que o homem quiser, pois o espírito de solidariedade não pode se circunscrever a alguns dias, a uma data. Porque sempre haverá quem precise de um olhar cuidadoso, de uma atenção mais profunda, de um sorrriso de aprovação, de uma palavra de incentivo, de uma mão que apóie, de um abraço que confira calor. Estes sim serão presentes essenciais durante todos os dias do ano, porque vitalizam quem está momentanemente fragilizado, ferido, incapacitado.
Então, que o Natal não seja apenas de presentes temporários, datados, perecíveis, com data de validade: alguns perdem a graça já no dia seguinte. Que possamos manter um mínimo de significados: que a estrela de Belém se acenda em nossos corações, que a criança que nos habita renasça, que a proximidade das pessoas possa significar antes de mais nada solidariedade.
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