O Natal e a paixão pela vida


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Uma pessoa muito especial perguntou-me o que eu gostaria de ganhar no Natal. Sem vacilar, respondi: “sabe aquele malote que eu trago cheio de processos para casa no fim da semana? É ele que eu quero. Vazio”. Não que eu não goste de trabalhar, mas nesta época chego ao limite do cansaço, e então quero descansar. Fervilho durante o ano e no fim entro em ebulição. É quando preciso parar para uma revisão, um pouco de reflexão. O espírito do Natal parece que faz a gente ter mais paixão pela vida. Talvez seja o efeito das luzes, da agitação, das vitrines, da cidade colorida. Todavia, há que se ter cuidado para não virar um glutão; é preciso ir devagar com a comida, a bebida, não se empanturrar. Mesmo na comemoração é necessário moderação. Manhã de Natal não combina com ressaca, azia, indigestão. Neste Natal, como o feirante que vai trabalhar, talvez eu me levante bem cedo, ainda escuro, muito antes do nascer do Sol, para sair sem medo a caminhar de chinelo por aí, respirar ar puro, sentir o prazer da brisa fresca no rosto, ver o belo surgir dos primeiros raios do astro-rei, as ruas sossegadas sem os carros, apreciar a calma da manhã, ouvir a saudação do bem-te-vi, mastigar devagar e com gosto uma tenra maçã. É uma boa ocasião para refletir, lembrar as “pisadas na bola”, prometer intimamente não repetir as besteiras que só se tem permissão para fazer uma vez na vida, contemplar tanta coisa que nos rodeia, mas que no corre-corre passa despercebida. Talvez eu leve a máquina fotográfica, como é costume do meu amigo Pimentel, para, quem sabe, flagrar aqui ou ali e pôr no papel uma borboleta em repouso, estática, uma ave errante cortando o céu, um elétrico colibri. No Natal comemora-se o nascimento de Jesus Cristo, o mais humano dos seres humanos, o homem que ensinou o amor ao próximo, o perdão, a solidariedade, a tolerância, a conhecer a si mesmo antes de julgar o outro (os sem-pecado atirem a primeira pedra). Jesus, que pregou o desapego material, que expulsou os vendilhões do Templo, o que faria hoje ao ver esses bispos e pastores de araque? Doe-nos todo seu salário e lhe faremos milionário. É preciso gostar da vida, ter paixão. Não importa se é pobre, rico, feio, bonito, de QI baixo ou sabichão. Não importa. A vida não faz distinção. Você pode até desistir de alguma pessoa, alguma coisa, mas nunca desista da vida, nunca brigue com a vida. A vida gosta de quem gosta dela, sem distinguir se come caviar ou pão com mortadela. E quem é de bem com a vida exerce atração, não tem solidão. Você gosta de ficar perto de quem é de mal com a vida? Eu não. Pois bem, Jesus Cristo nada quer de você, muito menos o seu dinheiro. Ele só deseja que você seja feliz. Para isso basta ter amor no coração, estender a mão, repartir o pão, viver em comunhão. Foi o que Ele ensinou. Homenageá-Lo de verdade é praticar seus ensinamentos. Natal é nascimento, boa ocasião para fazer as pazes com a vida. É momento de comemorar de forma sadia, de sorrir, dar vazão ao bom sentimento. Vale até chorar... de alegria. O tempo é uma abstração, mas seu passar, na fração de cada dia, vai mudando a gente. Para nos mostrar isso tem a fotografia, que não mente. A cada idade é uma nova adversidade que surge, que desafia. Enfrentá-las é a maneira de aprender, adquirir sabedoria. Como é bom estar juntos, em família e/ou com amigos, num pequeno ou grande espaço, com tanto sorriso, com tanto abraço! É uma magia! Afinal, para quem tem paixão pela vida, poder comemorar uma data tão especial com a turma reunida, em boa companhia, é o sinal de que a paixão é mútua, é correspondida. Desejo a todos um feliz Natal. PAULO PEREIRA DA COSTA é promotor de Justiça e autor do livro ‘Pensando na Vida’. E-mail: paulopereiracosta@uol.com.br

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