Casal aprende a ‘falar’ com os olhos


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Maria da Graça Martins conversa com o marido José Martins, que sofreu derrame há 11 anos e perdeu a fala: “Um amigo nosso brinca que tem gente que fala pelos cotovelos e meu marido pelos olhos”, disse a mulher
Maria da Graça Martins conversa com o marido José Martins, que sofreu derrame há 11 anos e perdeu a fala: “Um amigo nosso brinca que tem gente que fala pelos cotovelos e meu marido pelos olhos”, disse a mulher
Onze anos atrás. José Martins estava com 48 anos, trabalhava como auditor fiscal e tinha o hábito de fazer exercícios regularmente ao lado da mulher, Maria da Graça Martins, 53, no Sesi. Aparentemente bem de saúde, ele sofreu um derrame em 1996. “Foi da noite para o dia. Um susto”, lembra a mulher. Ele ficou com seqüelas. Perdeu o movimento dos braços e pernas e não fala. Depois de 15 dias em coma e 55 internado no CTI (Centro de Tratamento Intensivo), recebeu alta e, em casa, ao lado da mulher e do casal de filhos, reaprendeu a falar... com os olhos. Na residência, o contato mais próximo entre os familiares os despertou para alternativas de comunicação. Graça percebeu que o marido ouvia bem e conseguia piscar voluntariamente. A partir daí, começou a elaborar um código próprio através do olhar. “Um amigo nosso brinca que tem gente que fala pelos cotovelos e meu marido pelos olhos”. Os dois começaram com apenas duas palavras. Quando piscava, José queria dizer sim. Se a resposta para alguma pergunta fosse não, abria bem os olhos. Deu certo. Por um tempo se comunicaram apenas assim, mas depois sentiram necessidade de ampliar as técnicas para conversarem. Com perseverança, incrementaram os diálogos. “Resolvi juntar o sim e o não com o alfabeto. Falava todas as letras, a, b, c, d, e, f, g... e ele piscava em sinal de positivo a cada letra correta para eu formar as palavras”, disse Graça. Para agilizar, ela combinou com o marido outras divisões. Primeiro pergunta se é vogal ou consoante. Se for consoante, pergunta se é antes ou depois. Se for antes, ela falará as que aparecem antes da letra M. Caso o marido dê a segunda opção, Graça dita do M em diante. “Ficou bem mais fácil”. O casal mantém uma sintonia incrível e se entende com rapidez. Quando deseja falar, José dá algum sinal, geralmente, movimentando rapidamente os olhos. “Se pisca repetidas vezes, pergunto ‘quer falar?’, pois, para nós, ele está falando, com os olhos”. A técnica foi aprimorada e, nove anos depois da criação, permite mais agilidade. Utilizando o código, ele consegue pedir algo, fazer comentários sobre os assuntos conversados ao seu redor e até escrever poesias. “Usando a técnica, ele vai criando as frases, eu entendo e escrevo. Ele já faz poesias de temas variados, como amor, natureza, infância e Franca”, disse Graça. Durante a entrevista realizada ontem, utilizando o código, José parabenizou o fotógrafo do Comércio da Franca, Tiago Brandão, por ter ganho o Prêmio Esso deste ano. “Ele está sempre atualizado. Ele ouve a Rádio Difusora direto e assiste televisão”, disse Graça. repassando A mulher de José, os dois filhos, a fisioterapeuta e o enfermeiro são capazes de decifrar o que ele diz. Mas a técnica já está sendo divulgada para outros pacientes com algum comprometimento na fala. “Aprendi com eles e ensino a maneira de se comunicar com os olhos para outras pessoas que acompanho. Muitos continuam com a audição boa. O José já ganhou agilidade e monta as frases muito rapidamente”, disse a fisioterapeuta Tânia Marchezini.

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