‘Então apregoei ali um jejum junto ao rio Aava, para nos humilharmos diante da face de nosso Deus, para lhe pedirmos caminho seguro para nós, para nossos filhos e para todos os nossos bens’ (Esdras 8:21).
Dom Luís Flávio Cappio, nascido em berço abastado, renunciou à riqueza e ao conforto para dedicar-se à vida eclesiástica e ao povo do nordeste brasileiro. Seis décadas de vida neste mundo tenebroso. Enganado por falácias e promessas; foram mais de 20 dias sem se alimentar. Seu corpo sentiu os efeitos do sacrifício-sacerdotal por amor a uma causa – contra a transposição do rio São Francisco ou do ‘Velho Chico’ – , que segundo o religioso, especialista no assunto, não resolverá os problemas do semi-árido.
Não vamos aprofundar muito na questão da ‘bilionária’ transposição, e a quem ela pode interessar; mas é bom lembrar que tanto na China como na Índia transposições do tipo foram feitas e seus resultados não foram nada animadores.
No Brasil, com o sistema energético interligado, tal mudança no curso do rio poderá comprometer o potencial hidrelétrico do País, aumentando os custos para fornecimento de energia elétrica. Pode ainda prejudicar a população ribeirinha, comunidades indígenas e quilombolas, bem como a biodiversidade e a fauna nas regiões que sofrerão a ‘intervenção’ da engenharia humana.
Mais uma dos “políticos” que ficará para a posteridade, não poupando dessa vez nem mesmo a natureza, sob a “pseudo-alegação” de levar água às regiões semi-áridas do nordeste; se esquecendo dos debates, estudos e de um detalhe interessante, o altíssimo índice de evaporação... Em Israel, a água é transportada em tubulações de alta pressão.
Ao bispo Cappio, envolvido em toda essa polêmica da transposição do rio, é equivocado atribuir protesto com “greve de fome”. O que ele faz e deve ficar claro, é a consagração através do ‘jejum’, tornando seu ato transcendental ao humano. Comportamento privado daqueles que possuem vida com Deus, vocacionados à espiritualidade que busca ter intimidade com o Ser que detém o controle e governa soberanamente o Universo. O jejum é uma forma de consagração em que se aproxima o homem de Deus pelo sacrifício de não se alimentar o corpo, enfraquecendo a matéria (a carne) por um propósito relevante e, em contrapartida, aflorando e fortalecendo sua essência espiritual (seu espírito) proveniente de Deus - pelo firme propósito de seu coração.
Atitude séria e corajosa como a do bispo pode demonstrar o quanto somos suscetíveis ao “torpor moral” frente a abusos que sofremos por decisões prejudiciais quase sempre impostas unilateralmente.
Talvez por estarmos cada dia mais acovardados, pacíficos e passivos diante das situações que “berram” em nossos ouvidos, clamando para que façamos algo que nos tire da vidinha medíocre e monótona que o servilismo nos assegura sossegadamente.
Espera-se que esse governo busque o diálogo e o entendimento; que o STF saiba julgar com retidão e isenção a suspensão das obras da transposição, até que se sejam superadas as divergências.
E o homem de corpo frágil e cansado, prestes a desfalecer, possa ser respeitado e ouvido por seus algozes – por quem afetuosamente ele certamente ‘ora’ –, para que possam abandonar o néscio-causal-governamental, alcançando maior sabedoria em suas ações...
RICARDO VERÍSSIMO JÚNIOR é teólogo, funcionário público e integra o Conselho de Leitores do Comércio da Franca
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