A família de Maria*, 3, descobriu que a criança tem leucemia há dois meses. A criança estava em tratamento até a semana passada, quando seu pai, o açougueiro PCP, 24, decidiu impedir as sessões de quimioterapia. Na segunda-feira à noite, o pai assinou um termo de responsabilidade e retirou a filha da Santa Casa para não receber a medicação. Ele disse que o pastor da igreja que freqüenta havia orado pela criança e que ela estava curada e que, por isso, não iria se tratar. Ontem, mudou um pouco a versão e disse que não autorizou porque queria “conversar melhor com o médico”. Ele já o tinha feito na semana passada. PCP e a mulher freqüentam a Igreja Universal do Reino de Deus.
Ontem, depois de faltar de duas sessões de quimioterapia (sexta e segunda-feira), a menina, que corria risco de morrer, reiniciou o tratamento. O pai só foi convencido a internar a filha para combater o câncer depois da repercussão da história e de conversar com cinco profissionais diferentes: dois médicos, a assistente social do Hospital do Câncer e dois conselheiros tutelares. Maria está na Santa Casa desde ontem, às 15
horas.
Reynaldo Sant’Anna, médico oncologista que acompanha o caso no HC de Franca, disse que conversou várias vezes com os pais, mas não havia obtido autorização para prosseguir com o tratamento. “O pai dizia que Jesus havia curado a filha. Não foi falta de explicação, mas de compreensão. Falei que o exame mostrou que a doença estava controlada e não curada. A paciente tem de continuar com as quimios, pois a doença pode voltar e ela morrer. Depois os pais terão de viver com essa culpa”, disse.
Diante da resistência dos pais, responsáveis legais pela filha de 3 anos, o médico decidiu acionar o serviço social do HC, que, sem sucesso com as tentativas de fazer o pai voltar atrás, comunicou o caso ao Conselho Tutelar anteontem. Na tarde de segunda-feira, os conselheiros estiveram na casa da família, na Vila São Sebastião, mas não conseguiram levar a garota para fazer quimioterapia. “Os pais trancaram a menina no quarto e o portão.
Não tivemos como entrar. Fomos até o Fórum, conseguimos um mandado de apreensão assinado pelo juiz e, com a PM, retornamos à residência. Só assim fizemos a remoção da criança para o hospital. Nesse momento, os pais ficaram um pouco mais calmos”, disse o conselheiro tutelar Lucas Verzola.
Segundo Lucas, a criança chegou a ser preparada para se tratar na segunda-feira, mas, ontem pela manhã, os conselheiros foram surpreendidos com telefonema do médico alegando que o pai retirou a filha da Santa Casa e ela continuava sem medicação.
Visivelmente exaltada, a médica Gleise Costa, coordenadora da unidade materno-infantil da Santa Casa, disse que o hospital não liberou a criança. “Fui comunicada na segunda às 22 horas que o pai estava gritando na enfermaria e iria levar a filha embora.
Conversei com ele por telefone, expliquei que a criança precisava se tratar e ele não podia fazer isso, mas ele assinou um termo se responsabilizando pelo não tratamento da filha e a levou. Hoje (ontem), voltou, está arrependido e internou a criança”.
Ontem, o pai não queria falar com a reportagem. Primeiro, por telefone, pediu para a repórter ligar “outro dia para fazer a entrevista”. Mais tarde, pessoalmente, pouco disse para justificar sua atitude. Ele apresentou outra versão. “Não levei a menina ontem porque queria conversar mais com o médico, precisava saber um tanto de coisa. Hoje (ontem) de manhã fui lá e ele me explicou. Tem que continuar...”. Sobre o pastor apenas disse que “a partir do momento que o pastou orou não deu mais febre, não deu mais sintoma nenhum nela. A ferida sumiu no outro dia (depois da oração). Eu tenho fé em Deus”.
JCP, 20, mãe de Maria, disse que houve confusão por parte dela e do marido, mas falou com convicção sobre as orações do pastor. “Há uns 20 dias, minha filha saiu da Santa Casa depois da quimioterapia bem fraca, com resistência baixa, feridas na boca e sem comer direito. Levamos ela na Igreja Universal do Centro, o pastor orou e disse que ela voltaria a comer e ficaria boa. Ela sarou tudo. O pastor não falou para parar o tratamento, nós que decidimos. A menina ia precisar até de transplante, de repente fica com 0% (de leucemia) de acordo com os exames e melhora com orações. Achamos que não precisava de continuar”. O exame a que a mãe se refere foi apresentado na semana passada, mas segundo o médico Reynaldo Sant’Anna, não significa que as quimioterapias podem ser suspensas. “O exame normalizou e quando isso acontece muitos pacientes acham que podem parar de tratar. O objetivo do tratamento é controlar a doença e, quando isso acontece, ela não fica visível nos exames, mas ela pode estar lá e precisa ser combatida”.
O Promotor da Infância e da Juventude, Augusto Arruda Neto, foi categórico e disse que nestes casos a Justiça pode obrigar o tratamento e até retirar a criança dos pais se descumprirem a ordem. “O direito à vida é superior ao religioso. A Justiça pode obrigar o pai a permitir o tratamento e se ele não acatar a ordem, podemos suspender ou extinguir o poder familiar, pois configura maus-tratos. O pai não está cumprindo a obrigação legal que é cuidar da criança”.
Ontem, a reportagem tentou falar com o pastor da Igreja Universal para obter sua opinião a respeito da atitude do casal, mas não conseguiu. Foram feitos seis telefonemas para o novo templo do Centro. Por volta das 19 horas, a reportagem foi pessoalmente ao local, mas o pastor Nilson Savioli, responsável pela igreja, avisou que não iria se pronunciar.
* Nome fictício
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.