Ultraje à democracia


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Recomendaram-me um vídeo chamado ‘Amazônia, uma região de poucos’ disponível no You Tube, mas, ao mesmo tempo, coragem para assistir a ele. Como se já bastasse o desmatamento ostensivo e a captura de aves silvestres, desta vez o Greenpeace denunciou os chefões do agronegócio em Juína (Mato Grosso), que expulsaram, por meio de ameaças e a conivência dos representantes políticos da cidade, alguns visitantes. Entre os forâneos, estavam ativistas do Greenpeace, da organização indigenista Operação Amazônia Nativa e jornalistas franceses, que apenas queriam conhecer a realidade dos índios Enauenê Nauê que habitam a região do Rio Preto. A cena que o vídeo reproduz é típica daqueles filmes mofados nas locadoras em seções longe dos ‘Lançamentos’ porque hoje os tempos são outros, porém as imagens surpreendem porque são de agosto de 2007. Esses visitantes foram impedidos de conhecer a região, ou seja, ceifados na liberdade de ir e vir e de coletar notícias para a imprensa. A audácia chegou a tal ponto que os fazendeiros cercaram o hotel em que a equipe estava hospedada para fazer ameaças e exigir a sua saída imediata da cidade, como se fossem os donos do pedaço. O Ministério Público e a Fundação Nacional do Índio devem tomar medidas urgentes para combater essa apatia democrática. O caso que discuto não é único, pois em cidades do interior do País é comum esse favoritismo eleitoral em que o patrão conquista voto para o político e este obedece em recompensa. Esses candidatos são eleitos porque prometem comida para um segmento paupérrimo, ganham votos devido à pequena ambição de muitos, e beneficiam os fazendeiros que querem expandir seus negócios com mais terras, porém há que tirar dos índios. É assim que acabam sendo comprados esses representantes mesquinhos. Permiti que este artigo fosse publicado em todo território nacional em diversos meios de comunicação para que os responsáveis por esse ultraje à democracia se envergonhem diante de todo o País e situações semelhantes cessem de existir. Se impediram o acesso dos visitantes ao local, boa notícia não se teria. Algumas hipóteses: roubo de terras pertencentes aos índios; isolamento coagido desta comunidade indígena; derrubada ilegal de árvores. Quem poderá saber? O antropólogo Darcy Ribeiro deixou em seus escritos que o fator fundamental do atraso das nações latino-americanas tem sido a associação do patronato e do patriciado com os agentes do imperialismo, que preserva uma ordem social desigual e perpetua o monopólio da terra, a exploração estrangeira e os privilégios de um grupo dominante. Creio que o Brasil é um País democrático, mas só ficarei satisfeito quando essa crença virar convicção. BRUNO PERON LOUREIRO é bacharel em Relações Internacionais.

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