Educação não é luxo


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EM BUSCA DA EDUCAÇÃO - Gilberto Dimenstein durante entrevista exclusiva ao Comércio da Franca: jornalista defende educação como caminho para tornar o Brasil uma grande nação e para acabar com a violên
EM BUSCA DA EDUCAÇÃO - Gilberto Dimenstein durante entrevista exclusiva ao Comércio da Franca: jornalista defende educação como caminho para tornar o Brasil uma grande nação e para acabar com a violên
<p>O jornalista Gilberto Dimenstein, 51, é uma figura polêmica. Membro do Conselho Editorial da Folha de São Paulo e criador da ONG (Organização Não-Governamental) Cidade Escola Aprendiz, ele coordena também o sítio de jornalismo comunitário da Folha e é responsável por projetos sociais envolvendo a área de Educação.</p> <p><br />Além de jornalista, Dimenstein também é escritor, premiado com dois prêmios Jabuti, o maior da literatura brasileira. Recentemente em Franca para o ministrar uma palestra na Unifran, concedeu entrevista ao Comércio onde declarou que o Brasil deveria começar a “pensar grande” se quiser ser incluído entre as grandes nações deste século. “Acho que sofremos por não pensar grande. O que penso que falta ao Brasil é a preocupação de pensar no longo prazo, planejando o futuro, e também ser generoso. Aqui o esperto é o rei, o generoso é o babaca”, avalia. Confira abaixo os principais pontos da entrevista, na qual o jornalista expressa seus pontos de vista sobre política, educação e jornalismo. </p> <p><strong>Comércio da Franca - Um dos grandes problemas do Brasil é a violência. Como mudar as condições sociais que levam a ela?<br />Gilberto Dimenstein</strong> - Acho que tenho só uma pequena parte dessa resposta. Penso que existem coisas óbvias, como o policiamento e um combate maior ao crime, mas eu prefiro enfocar a questão da educação. Não só a educação em escola, que tendemos a tomar como a única, mas sim o conhecimento utilizado para estimular nas crianças o sentido de pertencimento, de que ela participa de uma comunidade, pode apostar em seu futuro e reconhecer o seu passado. Uma pessoa que não tem esse senso pode aproximar-se com muito mais facilidade das drogas e está muito mais predisposta à utilização da violência, porque não tem nada a perder. Penso que este é o segredo. </p> <p><strong>Comércio - O senhor trabalha em projetos envolvendo a educação. O que pensa sobre a Fundação Casa, ex-Febem?<br />Dimenstein</strong> - Ela tem experiências maravilhosas, que acontecem em cidades do interior, em unidades pequenas, onde os jovens estão perto de suas famílias. Como parece ser o caso de Franca. O grande problema da instituição é quando se opta por colocar um grande número de internos juntos, em unidades que não têm nada a ver com eles. O que funciona são pequenos lugares onde ele se sente em família. </p> <p><strong>Comércio - A mídia não cobre adequadamente questões relativas à educação?<br />Dimenstein -</strong> Ela cobre, mas cobre mal. Digamos que a mídia não cobre educação com a mesma competência e profundidade que cobre política, economia ou esportes, por exemplo. Tenho a certeza, entretanto, que ao passo em que as pessoas passarem a perceber a importância da educação para viabilizar política, econômica e socialmente uma nação, as empresas passarão a qualificar melhor os seus repórteres e editores para uma cobertura à altura da importância do assunto. </p> <p><strong>Comércio - E sobre a sociedade, qual é o papel dela para melhorar o País?<br />Dimenstein -</strong> Na verdade, o que é público não é só o que é do governo. Público é tudo. Se quisermos fazer uma nação realmente transparente e democrática, as pessoas devem sentir-se como pessoas públicas, e não simplesmente deixar nas mãos das outras pessoas a responsabilidade pela sua vida. Penso que, quando chegarmos a esse estágio, haverá um grande salto no desenvolvimento social do Brasil. </p> <p><strong>Comércio - Notamos, cada vez mais, mão-de-obra com formação universitária fora do mercado de trabalho. Existem falhas no processo educativo brasileiro?<br />Dimenstein -</strong> É uma boa pergunta, e lamento informar que vai ser cada vez pior. Muito do que se ensina nos bancos escolares não tem nada a ver com a realidade e, às vezes, as pessoas que ensinam na faculdade não têm sequer relação com o mercado de trabalho.  Os currículos são montados não para desenvolver habilidades, mas para fazer provas. Um exemplo: se eu colocasse um quadro-negro aqui e mostrasse a tabela periódica, e pedisse para qualquer um preenchê-la, pagando US$ 1 milhão para quem conseguisse. Ninguém faria. Quando vejo os testes de Biologia da Fuvest, tenho a certeza que, hoje, não sou capaz de responder sequer um deles. E não me sinto uma pessoa fracassada. O que acontece é que o vestibular não é feito para medir conhecimento, e muito do que é ensinado nas escolas não tem relação com o aprendizado. </p> <p><strong>Comércio - Qual o grande problema, em sua opinião, da escola hoje?<br />Dimenstein</strong> - São vários problemas, mas o que mais me preocupa é a questão do método. As aulas de 45 minutos, por exemplo. Como foram determinadas? Elas não nasceram assim. O tempo foi definido após um estudo técnico que determinou que o jovem é capaz de manter a atenção em um assunto por 45 minutos, depois dispersa. Refizeram o teste no final dos anos 90, e concluíram que a capacidade de concentração do jovem baixou para oito minutos. <br />Então, veja o problema de estrutura: as aulas têm a duração de 45 minutos, mas os jovens só conseguem manter a atenção por oito. O aluno está acostumado ao mundo dos videogames, internet, interatividade, mas a aula é um professor falando com a criança sobre temas que ela não sabe sequer como utilizar. Falta, a meu ver, uma adaptação maior da sala de aula, e do espaço escolar como um todo, a uma nova realidade. A escola não conseguiu se reciclar, nem a faculdade. </p> <p><strong>Comércio - Então o senhor vê os mesmos problemas na faculdade?<br />Dimenstein</strong> - Sem dúvida. Vou utilizar o jornalismo como exemplo porque tenho contato muito mais estreito com as faculdades e com a realidade desta área. Visito freqüentemente faculdades que não têm um único profissional que tenha trabalhado em redação nos últimos cinco anos. Esse profissional vai ensinar o que? As universidades precisam inserir os jovens rapidamente em estágios, em trabalhos comunitários, para que o estudante comece a lidar com a realidade. Os problemas observados na educação são, sem dúvidas, muito similares ao que encontramos nas universidades. </p> <p><strong>Comércio - Segundo o filósofo Richard Rorty, um dos maiores problemas do Ocidente é o fato de que nos acostumamos a pensar pequeno. Faça uma análise sobre essa máxima aplicada ao dia-a-dia da nação brasileira.<br />Dimenstein -</strong> Acho que sofremos por não pensar grande. O americano, por exemplo, é um povo que pensa grande, por mais que possamos não gostar deles. A nação americana foi fundada tendo como base o conceito de liberdade e, quando analisamos os textos dos fundadores americanos, está lá, em palavras, a preocupação com a educação. Quando eles fundavam cidades, primeiro construíam a escola, depois a igreja. <br />O que penso que falta ao Brasil é a preocupação de imaginar o longo prazo, planejando o futuro, e também ser generoso. Aqui o esperto é o rei, o generoso é o babaca.  Na verdade, temos que pensar grande, mas também pensarmos profundamente pequeno. Temos que saber o que cada um de nós pode, pensando grande, fazer para modificar cada o espaço individual. <br />A grande revolução brasileira hoje, pensando grande, é a revolução das microrrevoluções. É como uma cidade se melhora, como um bairro se melhora, como uma escola pública se melhora. O pensar grande, para mim, é querer mudar o país, mas preocupado primeiro em mudar o entorno de onde vivemos. </p> <p><strong>Comércio - Entrando um pouco na questão política, faça um contraponto entre o governo Lula e o a presidência tucana.<br />Dimenstein</strong> - Lula tem pontos positivos. Somos um país com a inflação estabilizada, com mais recursos chegando aos mais pobres, com altas taxas de exportação e próximos a atingir a suficiência energética. Claro que esse cenário não é mérito exclusivo do Lula, mas o País não está uma tragédia. Estamos preparados para crescer, embora tenhamos uma situação fiscal difícil. Simultaneamente, pesam contra Lula graves acusações no campo da moralidade.<br />Penso que somos um país cada vez mais atento, com mais poder de saber o que é certo e o que é errado, com mais condições democráticas para que desvios como os observados no governo Lula possam ser investigados. De resto, também houve irregularidades nos governos FHC, como é sabido, mas ele teve mais competência política para contorná-los. </p> <p><strong>Comércio - Finalizando, o caminho continua sendo a Educação?<br />Dimenstein</strong> - Sempre foi, e continuará sendo. Só podemos começar a pensar em mudar de foco quando a Educação for uma realidade concreta na vida de todos os brasileiros, e não de uma elite cada vez menor e menos preparada. <br />Temos o exemplo da Coréia. Em duas ou três décadas de investimentos maciços em educação, conseguiram um crescimento invejável do PIB (Produto Interno Bruto) e na qualidade de vida de seus cidadãos. Investir em educação não é um luxo, nem uma situação que deva ser analisada em qualquer contexto. É uma obrigação para os países que realmente querem crescer.</p> <p><br />Colaborou Marco Felippe</p>

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