Fosse pela média das estatísticas oficiais, o mineiro Fernando Fernandes, negro e oriundo de família pobre, dificilmente teria conseguido entrar em uma das melhores faculdades públicas do País, a Unesp (Universidade Estadual Paulista), quanto mais em um curso disputado e elitizado como o direito. Mesmo depois de formado, ainda baseando-se no grosso da população com ensino superior, Fernandes já poderia dar-se por satisfeito, pois com diploma universitário nas mãos, estaria incluído naquela fatia irrisória de brasileiros que conseguiram terminar uma faculdade.
Ao conversar com esse jovem professor de 43 anos, recém-chegado de uma viagem de quase um mês pela Colômbia e pela China, onde foi conhecer seus respectivos sistemas jurídicos, constata-se que as dificuldades enfrentadas desde a morte do pai, quando ainda era adolescente, não são expostas como algo que sirva de argumento negativo ou para uma justificativa piegas e gratuita como se quisesse condicionar o que é hoje ao que foi ontem. Pelo contrário, esse doutor em direito penal, vice-diretor do campus da Unesp de Franca, faz questão de deixar claro que o impulso e fundamentos necessários à sua evolução pessoal e profissional vieram do ambiente familiar, vivido com mãe e duas irmãs, e não da condição em que viviam.
Morando em Passos (MG), onde nasceu, Fernandes começou a freqüentar o curso de Direito da Unesp de Franca, para onde viajava todos os dias. Dividia os estudos com o horário em uma agência bancária, onde trabalhava. Antes dela, foi técnico de som em uma rádio local.
A graduação, em 1989, foi apenas o começo de uma trajetória acadêmica reconhecida nacional e internacionalmente. Mestrado e início de doutorado feitos na Universidade Federal de Minas Gerais, foi para Franca que Fernando Fernandes retornou para dar aulas, e de onde não saiu mais. Mesmo assim, mantinha sua agenda em Belo Horizonte. Na capital mineira recebeu o convite para realizar pesquisas em Coimbra, Portugal, na Universidade de Direito que é a mais afamada e admirada em todo o mundo.
Acreditava que estudaria lá um tempo e depois voltaria para obter o título de doutor no Brasil. Numa reviravolta inesperada, proposta pelo próprio orientador do trabalho, o brasileiro passa a preparar a apresentação de seu trabalho na própria instituição portuguesa.
Como seria o primeiro estrangeiro em toda a história da Universidade de Coimbra, fundada no século 13, cogitado a obter tal título, foi preciso que a instituição recorresse ao Senado português para que alterasse uma lei federal, a fim de permitir a titulação. Antes de se submeter ao exame dos parlamentares, o conselho científico da universidade já havia aprovado com distinção o trabalho apresentado por Fernandes.
A atuação em Portugal rendeu reconhecimento imediato e convites de outras instituições, até mesmo para que ficasse na Europa, trabalhando por lá. Mais que isso, salienta, o que ficou de intenso foram os laços de amizade com pessoas que o adotaram como se fosse da família. Entretanto, apesar da insistência e da tentação em ficar, sobretudo na Espanha, preferiu voltar ao Brasil, mais especificamente a Franca, onde a história começou e de onde não pretende sair tão cedo.
Seu filho literário, como chama o resultado do trabalho de doutorado, editado e transformado em livro, veio bem antes do filho biológico. Mas ao falar de Álvaro, nascido em fevereiro deste ano, em seu casamento com a mulher, Elma, o professor metódico e formal se transforma. “Sempre ouvi dizer que a paternidade e, claro, a maternidade, tinham o poder de mudar o estado de espírito de uma pessoa. Só não sabia o que isso significava porque sempre estive muito preso e ligado ao meu trabalho, aos aspectos da minha carreira”, disse. “Viver essa experiência foi algo indescritível. Muda completamente a sua forma de ver a vida, de ver o futuro”.
À família pequena e sem nenhuma posse, como frisou bem, ele atribui boa parte de sua formação pessoal e profissional. À religião, porém, o homem que se desenvolveu dentro do ambiente acadêmico, tradicionalmente não muito afeto e simpático a esse tipo de debate, credita cada ponto de sua evolução. Católico fervoroso, não faz questão nenhuma de omitir essa condição.
“Colocado o destaque para a família, eu digo que minha história no contexto profissional, pessoal e familiar só pode ser explicada por uma graça divina e uma bênção muito fortes. Sou privilegiado por ter uma vida de fé, e a esse valor eu atribuo tudo o que aconteceu comigo”, afirmou o professor. “Digo sempre que se eu passar toda a minha história agradecendo, seria pouco diante daquilo que eu reconheço como atuações de Deus acontecidas na minha vida”.
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