Médico abandona posto em UBS; paciente morre


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PROBLEMA RECORRENTE - Fachada da UBS do Jardim Aeroporto I: além do abandono de médicos e da falta de segurança, pacientes já reclamaram da fila constante na unidade (foto); em outubro, dupla armada invadiu o local atrás
PROBLEMA RECORRENTE - Fachada da UBS do Jardim Aeroporto I: além do abandono de médicos e da falta de segurança, pacientes já reclamaram da fila constante na unidade (foto); em outubro, dupla armada invadiu o local atrás
O abandono do trabalho por um médico da UBS (Unidade Básica de Saúde) do Jardim Aeroporto I e a morte de uma paciente sem atendimento na manhã de quinta-feira causaram muita polêmica em Franca ontem. Alice Ananias Soares, 58, procurou atendimento na unidade, mas às 6h40, o médico RB já tinha ido embora. Ele abandonou o trabalho às 6 horas repetindo o que já havia feito no dia 22 de novembro no mesmo lugar. O médico teria que ficar até as 7h, quando chegaria seu substituto. Alice foi levada ao PS “Dr. Janjão” e morreu de parada cardiorrespiratória uma hora e 48 minutos depois. Segundo familiares da dona de casa, sua saúde era boa. O único fato que poderia evidenciar algum histórico de problema era o controle com medicamentos da pressão arterial. Fora isso, conta o filho Alyson Ananias Soares, 18, fazia seus trabalhos domésticos e cuidava da casa normalmente. Alice completaria 59 anos no dia de Natal. Na manhã de quinta-feira, como de costume, levantou às 5h30 para preparar o café para o marido, o ajudante-geral Antônio Aparecido Soares e para o filho. Entre 6 horas e 6h30 da manhã, deitada no sofá, apresentou uma crise de sudorese e começou a se queixar de dores e tonturas. Acompanhado de um vizinho, pois o pai já havia saído para o trabalho, Alyson levou a mãe para a UBS do Aeroporto I. A unidade, que funciona 24 horas e se presta ao atendimento de urgência e emergência, estava sem médico plantonista. RB, que deveria esperar a chegada do médico que o sucederia às 7 horas, abandonou a UBS uma hora antes. Duas semanas atrás, alegando falta de segurança no local de trabalho, ele também deixou seus pacientes desassistidos. Orientado por funcionários da unidade, Alyson nem deixou sua mãe descer do carro em que estavam. Foram direto para o PS “Dr. Janjão”. Já passando mal, ela caminhou até a recepção, sendo atendida no mesmo momento. Logo em seguida, vieram duas paradas cardíacas, com tentativa de reanimação. Pouco depois das 8h30, a dona de casa morreria. Para o marido, Antônio, a falta de um profissional para atendê-la na unidade básica de saúde que está a 500 metros de sua casa foi decisiva para o agravamento do quadro de saúde da mulher. “Tenho certeza que se tivesse ocorrido um atendimento aqui, ela não teria morrido”. O secretário de Saúde de Franca, Alexandre Ferreira, discorda. Em sua opinião, não é possível avaliar se Alice Soares teria sobrevivido caso fosse examinada no Aeroporto. Ontem, Ferreira estava mais preocupado com o abandono do médico RB, que coincidiu com a morte da dona de casa. Segundo ele, após tomar conhecimento do caso, um boletim de ocorrência foi feito no 4º Distrito da Polícia Civil e uma sindicância foi aberta. Além dessas providências, um outro processo foi aberto na comissão de ética da secretaria, bem como notificações das medidas enviadas para o Conselho Regional de Medicina. Durante a tarde e a noite de ontem, a reportagem do Comércio tentou entrar em contato com o médico RB pelo número de telefone fixo que consta em seu nome na lista telefônica, mas estava indisponível. Na UBS, a última informação que funcionários tiveram do médico dava conta de que ele havia viajado. Embora as ações sejam pontuais e aplicáveis a um caso específico, há muita reclamação com relação à falta de atendimento na UBS do Aeroporto. José Luiz Ferreira, que mora no bairro, disse que já levou parentes três vezes à unidade, mas em todas houve alguma deficiência. “Ou não tem ambulância ou não tem médico. Esse posto é uma vergonha”. Alice Ananias Soares foi enterrada ontem, às 8 horas, no Cemitério Santo Agostinho.

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