As quedas


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Caiu o Corínthians. Não me saem da cabeça as emocionantes cenas da torcida gritando mesmo após o final do jogo. Vários brutamontes tatuados chorando convulsivamente enquanto os jogadores saíam de campo. Se fossem os jogadores do Corínthians que eu aprendi a admirar nos anos setenta, oitenta e noventa, eu teria certeza de que estariam envergonhados. Hoje não sei mais. Naquele Corínthians que aprendi a amar, jogador perna-de-pau que erra passe de três metros não durava muito tempo. Era colocado pra fora pelos próprios companheiros. Hoje, além de permanecer no time ainda dá entrevista na televisão... Que coisa mais melancólica... O meu Coringão caiu. E o que vimos nesse Campeonato Brasileiro foi o exemplo acabado de dois Brasis. De um lado, a elite representada pelo São Paulo campeão, time coerente, com planejamento profissional e objetivos de longo prazo. De outro, o Corínthians. O time da bagunça, do amadorismo, da politicagem e desonestidade. Meu Timão mereceu cair. Vamos analisar a queda? O time foi uma porcaria; os jogadores, pernas-de-pau, o técnico não resolveu, a direção foi amadora e o planejamento não existiu. O Corínthians tinha que cair. Mas o Corínthians não podia cair. Sem ele o campeonato perde a graça, a nação corintiana fica desmotivada, os jogos perdem o interesse, reduz-se a quantidade de dinheiro aplicado ao campeonato, cai a audiência da televisão. O Corínthians não podia cair mas fez-se justiça. Fez-se a desgraça. Caiu também a CPMF. As cenas dos políticos tentando defender ou derrubar o imposto sobre os cheques foram ridículas. Argumentos populistas, rasos, falsos. Chantagens, ameaças, mentiras e manipulações. A discussão foi totalmente política e em alguns momentos me senti ofendido. Pensam que sou idiota. Como no momento em que o presidente recém-eleito para o Senado foi chamado às pressas para uma audiência com Lula. Os assessores argumentaram que a razão era “o desejo do presidente de cumprimentar o recém-eleito”. Não era pra falar da CPMF. Sei. Vamos analisar a queda. A CPMF é uma excrescência, um imposto disfarçado de “contribuição”, que incide diversas vezes sobre a cadeia produtiva, que penaliza os ricos, os remediados e os pobres, que teve sua nobre intenção inicial desvirtuada, que de “provisório” nunca teve nada. A CPMF tinha que cair. Mas não podia. Era um imposto com sistema de arrecadação eficiente, imune à corrupção, barato, praticamente à prova de sonegação. O dinheiro que ela arrecadava ajudava o combalido sistema de saúde brasileiro. E agora os caras vão arranjar outro bolso onde meter a mão. Outro bolso meu e seu, logicamente. Fez-se justiça. Fez-se a desgraça. As quedas da CPMF e do Corínthians são sintomas de um Brasil confuso. Um Brasil onde a justiça traz desgraças. Algo vai mal, no país tropical. LUCIANO PIRES é jornalista, escritor, palestrante e cartunista.

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